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A (des)máscara


Há máscaras que nunca caem e de tão grudadas já viraram rostos, rostos moldados pela máscara da canalhice. O século XXI finalmente começou e está marcado pelo acervo da pulsão de morte do ocidente. Nesse velho novo mundo, nunca sabemos quando um motorista de transporte coletivo pode vir a ser violentado e morrer. Causa da morte: bom senso! O motorista tinha exigido que o passageiro usasse máscara. E ficamos assim, sem saber ao certo quem é mais letal, o vírus ou os hospedeiros.

Outra situação trivial como ir ao mercado, também pode rapidamente no século XXI virar um caso criminal. Vejamos: Logo na entrada do supermercado um senhor começa a gritar com o segurança, grita pelo seu direito mortífero de não querer usar máscara. Gritar nunca é suficiente, então o cidadão de bem saca o revólver e de tão bem treinado, mata um cliente que não tinha nada a ver com a discussão. Causa da morte: estupidez deliberada.

Ainda no supermercado podemos observar outros crimes tão letais quanto, estejamos atentos! Recentemente, nesse século XXI, vi uma funcionária que fazia uso de máscara, sendo treinada pelo seu gerente sem máscara. O mesmo homem que dias atrás anexou na entrada do estabelecimento um aviso:

-Proibido entrar sem máscara.

No corredor de produtos de higiene, percebi que não há papel higiênico que dê conta de limpar tanta merda e como já não bastasse, uma mulher desfilava com sua máscara de queixo, pois é, enquanto sua filha que deveria ter cinco anos de idade, segurava o Pateta. A mãe não achou interessante que sua filha usasse máscara, mas achou inevitável que a filha levasse o seu bichinho de pelúcia ao supermercado.

Por fim, como todo mundo uma hora ou outra tem que pagar a conta, segui para a fila do caixa e me deparei novamente com a Disneyworld, mas isso já nem era o mais importante. Agora eu tinha que lidar com o vírus do racismo e o raio laser que saía dos olhos da criança branca e atingia o corpo da criança negra.

Quando a menina de aproximadamente cinco anos viu a criança negra, pude também ver as suas engrenagens cerebrais entrando em curto-circuito. A menina resolveu encarar o menino com um olhar que eu só tinha visto em um adulto. Um olhar scanner que começava pelo cabelo e acabava nos pés, para dos pés subir até o cabelo e parar nos olhos do jovem. Entre uma lambida e outra em seu sorvete, pois é, a branca mirava. O menino sabia o que acontecia e o seu pai afastava da fila os irmãos mais novos, enquanto o menino ficou a encarar a patetice por quase um minuto. Um minuto que nos levou ao século XVI, ou ainda para 1958 e aquela última feira mundial do zoológico humano.

Cinco anos foram suficientes para a estrutura diabólica ser erguida, a mamãe branca seguia também chupando o seu sorvete e com a máscara da canalhice bem fixada, essa não caía por nada. Nelson Rodrigues dizia que é preciso de alma até para chupar um Chicabon, não era o caso.

Nesse dia brasileiríssimo do início do século XXI, aprendi uma forma inédita de explicar para os meus alunos o Estádio do Espelho, não havia dúvida, a filha era realmente filha da mãe.

Vandia Leal