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Cópia



“Atravesse na faixa, preste atenção ao semáforo, não trombe nos transeuntes!” As ruas do centro da cidade fervilham. “Cuidado com o carro que avança o sinal!” Por que as pernas estão tão lentas? Parece não querer obedecer. Um emaranhado diabólico na corrida final da volta ao lar. “Está quase em casa, suporte, força.” O fim da tarde não cede espaço a um mínimo vacilo nem prorrogação ao tempo. “Barulho insuportável! E essa poluição que faz tão mal à pele.” Ao fim do dia ninguém é poupado, até mesmo a criatura que carrega em si a dor da incompreensão. Com passos trôpegos, tenta dar conta de chegar em casa. “E aquele médico? Não entendeu nada mesmo! Que mal há em não querer ser você mesma?”

Quando o fiapo de gente levitou até sua sala, o homem, já muito acostumado às diversas esquisitices, espantou-se com a magreza da mulher. Se fosse apenas isso não seria nada além do normal, mas ela tinha próteses mamárias enormes. A desproporção entre o excessivo volume em um peso de 41 quilos, causou-lhe uma sensação incômoda como se ela fosse dobrar ao meio prestes a cair para frente de cara no chão. Não gostava de clientes assim. Difíceis, fora da realidade, obsessivas. Sentou-se à sua frente bem ereta, sem encostar no espaldar da poltrona. Apoiou os antebraços e manteve as mãos levemente suspensas no ar. Ele notou o longo comprimento de suas unhas pink que de vez em quando unia as pontas opostas como se estivesse analisando a apresentação de uma tese. Pele muito clara, maquiagem carregada, olhos intensamente azuis provenientes de lentes de contato, lábios intumescidos. Tinha o vício de passar as mãos pelo cabelo louro canela longo, puxando-o para um lado, sobre um ombro. Gestos estudados, sorriso forçado, dentes com clareamento, voz infantilizada. Piscava repetidamente seus longos cílios postiços, o que lhe conferia um ar de imbecilidade, deixando a dúvida se ela estava entendendo ou não as explicações dele. O médico definiu-a como algo vago, diáfano. Sua fragilidade física associada à artificialidade, conferiam-lhe a qualidade de existir sem existir. Tinha certeza dela estar sentada à sua frente e bem viva, porém, transmitia-lhe a sensação de estar ali só em corpo, um ser sem essência.

Durante a consulta soube que já havia feito quatro cirurgias para próteses mamárias e sim, queria aumentá-las. Três no nariz, além de uma no queixo para melhorar o contorno, várias sessões de preenchimento nos lábios e maçãs do rosto, retirada de duas costelas flutuantes para afinar a cintura. Examinou suas mamas e foi sincero ao dizer que ela não podia aumentar. Tentou explicar os riscos sem causar-lhe afetação, pessoas assim não suportam a frustração e sentem-se ofendidas quando o que desejam não se realiza. Como esperado, ela exasperou-se, fechando o avental de exame com indignação. Revirando para o alto os olhos quase translúcidos, tentou fazer o médico entender: “quando me olho não vejo o que as pessoas veem; sei que o preenchimento nos lábios e bochechas me dá um ar artificial, mas é assim que quero; as pessoas acham estranho, comentam e riem pelas minhas costas, porém eu não ligo; eu quero ser uma boneca. O senhor me entende?” Ele entendia muito bem, se bem que bonecas não tinham mamas tão grandes assim. Todavia, sabia que ela precisava copiar um modelo em vez de tentar ser um modelo para si mesma. Concluiu que ser ela, por motivos obscuros e profundos, devia lhe ser muito difícil.

Por fim chega em casa. Está suada, cansada e muito frustrada. Como assim não pode aumentar as próteses? Explodir?! Suas mamas não vão explodir. Depois aquele papo de mamografia. “Doutor, bonecas não fazem mamografias.” Perda de tempo e dinheiro. E a dor nas pernas? Nem lembrou-se de falar sobre isso, com certeza ele não iria acreditar. Vinha incomodando-a há, mais ou menos, um mês. O estranho é que a dor passeava pelos membros, uma sensação muito ruim. Às vezes formigava e a região ficava endurecida, dificultando os movimentos. Hoje estava pior, tinha custado a chegar em casa com as pernas pesadas. Agora eram os lábios que estavam formigando, pareciam anestesiados por um dentista. Pensa em sua dermatologista. “Precisa mais preenchimento nos lábios. Amanhã marque hora.” Médico imbecil! Não entendeu seu objetivo, os sacrifícios que é capaz de fazer. “Encontre outro, não desista até descobrir, mesmo que fora, um cirurgião plástico que aumente suas próteses para mil e quinhentos mililitros. Barbie Tropical é assim, portanto você também pode ser.”

Arranca as sandálias e afunda-se no puf do quarto, abraçando o cachorrinho de pelúcia. As lágrimas afloram com facilidade, não queria mas não consegue evitar. É o terceiro médico em três meses que se recusa a operá-la. Se conhecessem seu íntimo iriam consentir com a cirurgia. Mas médicos não sabem nada de bonecas. Eles e suas explicações cheias de termos difíceis!

Permanece no fundo do puf por longos momentos, intercalando o choro com exclamações carregadas de ira, outras de amargura. Maldiz o médico, pragueja contra a família e a si mesma, desprezando-se pela incapacidade em se tornar uma cópia. Num impulso, dirige-se ao closet e sem pensar abre a parte das prateleiras com sua coleção de bonecas Barbie, as duzentas e trinta e uma adquiridas desde a adolescência. Olha-as com misto de admiração e tristeza. Grita enquanto as joga ao chão, só dando-se por satisfeita quando a última vai parar próxima a porta. Tem no rosto um semblante perturbado, olhos arregalados, cabelo desfeito, maquiagem borrada. Tira as lentes e cílios postiços, jogando-os pro lado num gesto abrutalhado. A dor no corpo é enorme, sente o rosto endurecido, os lábios endurecidos. Joga-se no chão no meio da coleção de bonecas, abraçando-as com o sentimento de arrependimento. “Perdão, perdão, me desculpem”, repete várias vezes, beijando-as. “Eu te amo, te amo, te…” Então, percebe suas mãos sem as unhas de porcelana. Onde as perdeu? Parece-lhe enxergar um inseto repugnante ao olhar suas unhas naturalmente curtas e sem graça. Pega aleatoriamente uma boneca e outra: Barbie Fada, Barbie Viajante, Barbie Cigana, Barbie Princesa, Barbie Esportes...todas com a roupa reproduzida em tamanho natural, chegou a usar algumas, outras, guardou como relíquia. Apanha Barbie Banho de Cachorrinhos. Lembra-se de tê-la comprado só por causa do traje, uma jardineira azul clara com uma blusa com listras coloridas. Ficara radiante quando a costureira entregou-lhe a roupa exatamente igual. Mas a sandália preta não conseguiu encontrar uma idêntica. Ficou muito deprimida por dias. Em meio aos soluços, alisa o cabelo de outra.

— Como você é linda. E esse cabelo? Por que não consigo esse brilho? Você me entende, não é? Eu sei que sim. Quero tanto ser como você. Ser eu não tem a menor graça. Mas não sei se vou conseguir. Quero tanto, tanto, tanto, tanto...

A dor aumenta e espalha-se por todo meu corpo. Levo minhas mãos à barriga, contorcendo-me, língua paralisada, a garganta ardendo em fogo. Levanto-me e, desesperada, olho-me no espelho. Grito com o que vejo. Dos meus lábios vaza um líquido viscoso, parecido com leite, enquanto vão diminuindo de tamanho, murchando como bexigas; meus olhos tornam-se azuis novamente, vítreos; a pele do rosto adquirindo um aspecto estranho, brilhoso, pernas, braços, pescoço, tudo está se transfigurando. Em meu reflexo, estarreço-me ao ver-me deixando de ser eu. Apalpo meu rosto e vejo que estou perdendo a pele, inexplicavelmente sendo forrada por algo parecido a plástico. Meu desespero aumenta quando começo a sentir falta de ar. “Abra a vidraça!” Não resolve, o sufocamento progride. Tento novamente gritar, mas nada sai de minha boca. A dor me verga até o chão onde caio novamente entre minhas bonecas. Já não consigo pensar direito, a visão vai se turvando, a mente embotando. A sensação de vazio invadindo-me como se expelisse órgão por órgão pela respiração. Com Barbie Opera House na mão, aperto-a com dificuldade, junto a mim, buscando algum conforto. Como ela é linda! Como eu queria ser como ela! Bonecas são famosas, admiradas, desejadas, e, sobretudo, poderosas. “Você não acha que já estou bem parecida com você?” Ela ouve meu pensamento e responde que já sou linda como ela e pede-me para parar de chorar. Bonecas não choram, nunca perdem o glamour. A dor vai passando, o choro secando. Vou me aquietando com minha boneca presa entre meus dedos rijos. Consigo ouvi-la pois fala em meu ouvido que o processo está terminado, “agora você é uma de nós.” Enfim, entendo o que quer dizer e entrego-me ao momento final de minha transmutação. Já não me sinto mais, estou totalmente paralisada. Em meu corpo e mente, adquiro a paz, deixando o êxtase me invadir. Mantenho os olhos abertos, embora nada mais enxergue. Consigo abrir um leve sorriso pois bonecas estão sempre sorrindo. Entrego-me ao último sentimento que consigo registrar, que é o de estar sendo transportada para fora de mim e do mundo sensível que me rodeia.


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No closet, duzentas e trinta e duas Barbies estão espalhadas pelo chão. Uma delas não tem roupa especial alguma. Usa um vestido muito curto e justo, uma estampa suave em xadrez de rosa e branco. Seu cabelo é bem brilhante, apesar de despenteado. É uma bela Barbie e pode ser que passe despercebida em meio a tantas outras tão bem vestidas. Porém, uma coisa é comum a todas: o sorriso impecável e indelével. É que bonecas se amam, são perfeitas, a vida delas é perfeita e são felizes para sempre. Afinal de contas, bonecas existem para serem eternas. Bonecas são imortais.



Ligia Diniz Donega