Dona Neuza



Dona Neuza tirou os olhos da televisão e foi para a varanda carregando o menino.


Olha lá a mamãe! Ele disse apontando.


Do oitavo andar, ela via a patroa e vários outros moradores do prédio aguardando para começarem a passeata, todos vestidos de verde e amarelo.


O patrão que saiu do quarto, foi até lá e pediu a ela que preparasse blood mary e alguns aperitivos. O irmão iria visitá-lo.


Dona Neuza seguiu com o menino para a cozinha.


O patrão que era advogado, pediu sua carteira de trabalho a três anos e nunca mais a devolveu. Quando ela deu entrada nos papéis para fazer uma cirurgia de varizes, descobriu numa agência do INSS que não poderia ficar afastada. A carteira nunca fora assinada.


Planejava sair desse emprego no início do ano, mas o filho, a nora e a neta se encostaram em sua casa. A nora ainda corria atrás, fazia unhas o dia todo pra ganhar uns trocados. Já o filho, andava acomodado, voltara a andar com más companhias, não procurava mais emprego.


A manifestação começou e dona Neuza voltou para a varanda. Em meio aos gritos de ordem, vários cartazes e faixas com letras garrafais "CONTRA A CORRUPÇÃO" eram içados.


Aquela multidão vestida de verde e amarelo confundia a visão.


Dona Neuza foi novamente chamada. O patrão pediu que ela abrisse a porta. O irmão chegara. Os dois passaram a tarde bebendo. O menino mais novo dormiu, o outro ficou o dia todo no quarto, em frente ao computador. O protesto não podia mais ser visto da sacada, mas ouviam-se seus ecos.


Mais tarde, lá pelas 19 horas, dona Neuza começou a ficar preocupada. Domingo era um dia difícil de voltar pra casa por causa do horário do ônibus. A patroa ainda não havia retornado. Os homens pediram mais blood mary.


Dona Neuza pegou a jarra e a pôs sob a mesa de centro na sala quando o irmão do patrão gritou "Ei, serve a gente!"


Ela pegou a jarra e passou a servi-los. O homem, muito bêbado, mexeu o copo enquanto ela o servia e caíram algumas gotas da bebida em sua calça.


"Faz as coisas direito, sua preta suja!" Gritou o homem.


O restante da bebida voou na cara, na camisa, na calça e em parte do sofá. Dona Neuza pegou a mochila na cozinha e foi embora.


Chegando em casa por volta de 22:30 deu com o filho sentado próximo ao portão conversando com alguns rapazes. Eles a cumprimentaram. Ela não respondeu.


"Qual é, coroa?" disparou o filho.


Dona Neuza arrancou a mochila das costas e deu com ela nas costas dele. "Saiam da minha porta, bando de vagabundos! Quanto a você, te dou uma semana pra sair da minha casa. Uma semana, tá ouvindo?"


Dona Neuza entrou e foi direto para o quarto. Cochilou até a madrugada quando se levantou para tomar banho e comer. Depois voltou para cama e começou a rolar as postagens nas redes sociais. Ficou enojada vendo novamente o verde e amarelo dos protestos. Como não tinha com quem conversar àquela hora, gravou um vídeo sobre tudo o que tinha acontecido no trabalho até aquele dia e postou. O telefone descarregou. Ela adormeceu.


Pela manhã, a neta veio acordá-la. Dona Neuza se levantou e preparou o leite da menina. Enquanto coava o café, a nora apareceu arrumando a bolsa de esmaltes. Teria uma cliente dali a uma hora.


- Onde está seu marido? perguntou dona Neuza.


- Saiu cedo. Disse que ia procurar serviço. A nora respondeu.


- Olha aqui, minha filha, se ele não for bom pai pra sua filha, nem bom marido pra você, não vale a pena, tá me ouvindo? Pula fora!


A moça assentiu sem encarar a sogra.


Dona Neuza passou o dia entre lavar as roupas e faxinar a casa. Ao terminar, dormiu o resto da tarde. Por volta de 18 horas enquanto tomava café, viu o filho junto da nora e da neta atravessando a porta da sala a dentro. O filho estendeu uma nota de 100 reais em sua direção. Ela deu-lhe um toque afastando sua mão.


- Eu não quero seu dinheiro. Quero que você saia da minha casa.


- Tá certo, mãe! Arrumei uma empreitada. Amanhã vou olhar um barracão.


Ela não respondeu.


Pegou a xícara de café e se sentou no sofá quando alguém começou a chamar seu nome. Ela foi ao quintal e viu a cara da vizinha por cima do muro.


- Menina, corre lá e abre o face... Dona Neuza foi até o quarto e ligou o telefone. Quando entrou no face, havia mais de 300 notificações. Abriu uma.


Alguém postou o vídeo que ela enviou pela madrugada. Muitas outras empregadas domésticas faziam vários relatos de abusos dos patrões. Alguns advogados se prontificaram a atendê-la sem cobrar pelos honorários. Dona Neuza se sentou na cama com a mão na boca. Ficou rindo admirada.


Lilian Gonçalves


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