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Enola Holmes: novos olhares de gênero

Atualizado: Nov 17



Quando se pensa no sobrenome Holmes, a primeira referência que vem à mente é do famoso detetive criado por Arthur Conan Doyle em 1887. Sinônimo de investigação e perspicácia, a história do detetive ganhou novos entornos e roupagens no filme Enola Holmes, mais um sucesso a sair nas telinhas virtuais da Netflix, campeã de audiência nestes tempos de pandemia.

A novidade nessa trama fica por conta de Enola, irmã caçula de Sherlock, cuja história gira em torno de sua busca pela mãe desaparecida. Treinada por ela, a personagem mostra habilidades similares ao seu irmão, desafiando os papéis tradicionais de gênero que impunham à mulher a posição de submissa e do lar. Nesse sentido, a obra amplia o espaço dado por outras mídias como Elementary, que mostra a atuação de Sherlock e Watson, residentes em Nova Iorque, no século XXI[1].

A trama começa de forma inteligente ao fazer um jogo de palavras com o nome da protagonista, dizendo que ele também significa sozinha (Alone) em inglês. Isso também é possível de ser observado na realidade das mulheres, especialmente no que remete ao cuidado com a família e os filhos, uma vez que elas ainda são a maioria no contingente das chefes que vivem sozinhas com seus filhos, conforme pesquisa elaborada pela Escola Nacional de Seguros.[2]No caso de Enola, estar sozinha não é necessariamente sinônimo de algo ruim. Pelo contrário, a protagonista mostra-se mais à vontade para encarar desafios, usando-se dos seus conhecimentos para lidar com os obstáculos do cotidiano.

Desse modo, a trama é desenvolvida, uma vez que Enola parte em uma jornada para encontrar a sua mãe desaparecida e fugir dos seus irmãos, tutores legais na ausência de sua matriarca, mostrando-se dona do seu destino. A atitude da personagem não só a fortalece como a construção de uma personagem feminina, forte e independente condiz com o pano de fundo que ambienta a história: a Inglaterra do século XIX.

O local e o tempo em que o filme se situa são importantes por mostrar esse contexto de lutas que surgia na Europa e modificava as relações de gênero ao se tratar da Primeira Onda do movimento feminista, um manifesto das mulheres para protestar por seus direitos, como o direito ao voto, a luta contra os casamentos arranjados e uma maior participação no mercado de trabalho[3]. Dessa feita, a trama demarca a fuga e o enfrentamento da protagonista para com o destino que vai lhe sendo atribuído, uma vez que não tem interesse por fazer um curso de etiqueta, tampouco de ser colocada em um casamento arranjado, o que levou seu irmão Mycroft a vê-la como uma “mulher selvagem”, que deve ser controlada para se tornar uma boa esposa.

Mais um contraponto interessante a ser visto no filme é o encontro da personagem com o Lorde Tewksburry em uma viagem de trem. Enquanto Enola é destemida, forte e independente, o lorde aparenta ser um personagem frágil, perdido e delicado, alguém que precisa ser protegido para poder continuar sua jornada, caracterizando assim uma inversão de papéis de gênero na trama, enriquecendo a jornada da personagem ao cruzar com alguém com características tão díspares do modelo padrão de masculino.

Todos esses elementos compõem uma história interessante e enriquecedora ao utilizar um ponto de vista diverso, em outra visão do universo de Sherlock Holmes, sobretudo por se tratar de um filme baseado em uma fanfic[4]. A maneira como o filme insere a protagonista, que, apesar de ser bastante independente e ativa, ainda é uma adolescente, torna a história bem amarrada, com tramas paralelas que se complementam, fazendo da sua relação com as figuras masculinas do filme, ora antagônica, ora colaborativa, um dos ritmos fundamentais da narrativa, sobretudo pelo contexto histórico em que se passa, a Inglaterra do século XIX. Além disso, a maneira como ela se posiciona contra os modelos de gênero, também é interessante, sobretudo no ideal defendido pela personagem a partir da educação de sua mãe: ser uma mulher livre.

Dessa forma, Enola Holmes é um filme interessante ao dar uma nova interpretação aos papéis de gênero, fugindo dos padrões em um movimento de desconstrução e reconstrução, mostrando novas possibilidades para se compreender e interpretar homens e mulheres, categorias que se modificam e se constroem de acordo com a sociedade e o contexto histórico em que estão inseridas, caracterizando-se como uma metamorfose constante nas relações de poder presentes no mundo em que vivemos.



Miguel Barros (Colaborador Oficial Escrita Cafeína)


Referências

1- Elementary.

<http://www.adorocinema.com/series/serie-10552/>

2 – Em 15 anos, número de famílias, chefiadas por mulheres mais que dobra.

<https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2018/03/em-15-anos-numero-de-familias-chefiadas-por-mulheres-mais-que-dobra.html>

3 – Primeira Onda Feminista.

<https://www.infoescola.com/historia/primeira-onda-feminista/>


[1] Vale destacar também que, em Elementary, tanto o auxiliar de Sherlock, quanto seu grande rival são interpretados por mulheres, sendo a personagem Joan Watson (Lucy Liu) e James Moriarty (Natalie Dormer). Disponível em: <http://www.adorocinema.com/series/serie-10552/> [2] Em 15 anos, número de famílias, chefiadas por mulheres mais que dobra. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2018/03/em-15-anos-numero-de-familias-chefiadas-por-mulheres-mais-que-dobra.html> [3] Primeira Onda Feminista. Disponível em: <https://www.infoescola.com/historia/primeira-onda-feminista/> [4] Obra feita por um fã, ambientada no mesmo universo das publicações do autor.