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  • Carine Mendes

Escolha amorosa, fantasia e desejo em Teresinha

Atualizado: Jun 18



Neste esboço de reflexão tentarei promover algumas considerações sobre as temáticas da escolha amorosa, da fantasia e do desejo a partir da música Teresinha, de Chico Buarque. Comecemos, primeiramente, pelo conteúdo geral que a compõe. Teresinha encontra-se, num tempo qualquer, imersa em relações sequenciais (supõe-se) com vários pretendentes, cada um com suas vantagens e idiossincrasias, cada um a convocar as fantasias e o desejo amoroso de nossa heroína sob determinada lacuna. Bem, se é para esmiuçar a cifra questionemo-nos acerca de uma premissa que direciona nossa escuta antes de qualquer pena: Quem é Teresinha? Esta que nos toca, nos arranha e se apossa repentinamente de nossos ouvidos? Será ela uma mulher, heterossexual, monogâmica? Como nós, ouvintes apreciadores, vislumbramos esta dita em cada estrofe, performatizando as nossas fantasias sobre essa pessoa tão disputada?

Podemos vislumbrá-la como uma mulher branca, burguesa, moderna? Ou uma negra, empoderada, contemporânea? Ou ainda uma trans, classe média, parda? Talvez também uma índia, chefe de tribo, amarela? Claramente, isto depende daquele que fantasia junto à letra, à narrativa e à melodia. No que nos diz respeito, Teresinha pode ser tanto uma boneca inflável, uma cabra ou até mesmo um homem (Onde repousa o teu desejo?). O que não podemos negar é que Teresinha é, sem clareza de dúvidas, um nome e, mais ainda, um nome feminino. A associação entre Teresinha e uma mulher está, desse modo, acorrentada a ferro? Dizer feminino é pensar em qualquer coisa aqui e ali em toda parte da mulher? Deixemos cada um construir sua própria Teresinha, principalmente, porque a música, tão bem quista, nos diz muito mais sobre seus/suas/szs interpeladores/as/zs que sobre a/o/z interpelada/o/z.

Isto posto, sigamos investigando o imbróglio e retomemos as evidências:

O primeiro me chegou

como quem vem do florista.

Trouxe um bicho de pelúcia,

trouxe um broche de ametista.

Me contou suas viagens

e as vantagens que ele tinha.

Me mostrou o seu relógio,

me chamava de rainha.

Me encontrou tão desarmada

que tocou meu coração.

Mas não me negava nada,

e assustada, eu disse não

Analisemos alguns detalhes deste/a/z primeiro/a/z pretendente (homem, supõe-se). O que nos parece ao nos depararmos com alguém que em tudo quer agradar? Flores, pelúcia, joias, viagens, posses, status, o que há mais a desejar? Divagando por este primeiro encontro podemos estabelecer comparações com o início da maioria dos relacionamentos (não generalizemos nunca!) em que os/as/zs amantes tentam a todo custo criar esta narrativa/semblante de perfeição reluzente, a legítima self com legendas de felicidade plena! Como não acreditar? Que fazemos, como Teresinha, diante de tal sujeito? Obrigada, mas não! Passar bem e toca essa fila para o/a/z próximo/a/z!

Não obstante, sejamos honestos, a fantasia certamente é sedutora, Teresinha bem nos avisa, ficamos todos “tocados” com as promessas de mundos e fundos, mas o que há mais a desejar? Eis a questão que não cessa quando a promessa do outro é o exato preenchimento ilusório de tudo que se pode querer ter. Se tudo nos é ofertado sem o menor esforço, onde situamos a falta que há, por força de qualquer buraco, de aparecer uma hora ou outra? E sobre aquele/a/z que nada nega, que podemos de fato saber que não seja um grande fingimento? Da mesma forma que nos inícios, a lua de mel pouco dura, não sem demora nos deparamos com o desvestir das máscaras e os desinvestimentos que isto implica.

Chegamos, assim, a uma primeira conclusão com Teresinha, este/a/z primeiro pretendente não há de ser real, seu desejo falido está em ser o que completa o outro por inteiro, sua autenticidade está comprometida por uma performance do que se deve ser e não pelo que se é. Podemos pensar nos/nas/nzs filhinhos/as/zs da mamãe, ou na ilusão infantil que permanece no adulto, eternamente às voltas tentando ter o que não se é e revelando por todos os poros o que é da ordem do irrealizável.

Sigamos para o/a/z próximo/a/z da fila:

O segundo me chegou

como quem chega do bar

Trouxe um litro de aguardente

tão amarga de tragar

Indagou o meu passado

e cheirou minha comida

Vasculhou minha gaveta

me chamava de perdida

Me encontrou tão desarmada

que arranhou meu coração

Mas não me entregava nada,

e assustada, eu disse não

Pobre Teresinha! De filhinho/a/z da mamãe a filho/a/z do/a/z puto/a/z! Ou será este/a/z segundo/a/z um ex-filho/a/z querido/a/z da mãe após sucessivos enganos e confrontações com as faltas e frustrações da vida? (Não duvido). Neste prosseguimento entre pretendentes, deparamo-nos com a incorporação presentificada, neste/a/z segundo/a/z, dos vícios, dos traumas e das defesas em nome de uma vulnerabilidade que não pode nunca mais ser descoberta novamente (supõe-se). Este/a/z que transpira amargura é, infelizmente, bastante autêntico. Não encontramos muito comumente pessoas que, sob a alegação dos sofrimentos de outrora, se privam, se negam e se fecham completamente à vinculação com o outro?

A constatação é triste, tanto no primeiro como neste segundo momento Teresinha não existe para estes/as/zs que a pretendem conquistar. Nos decepcionamos por esta/o/z que está sempre à mercê das fantasias que lhe são impostas, tocando-a/o/z ou machucando-a/o/z e que, justamente por isso, ela/o/z se recusa a encarnar. Se antes constatamos muitas negações a faltas humanas e constitutivas travestidas na imagem de príncipe encantado, agora há, sobretudo, um excesso de faltas travestidas de amor “passional”. Concordamos e parabenizamos Teresinha por sua recusa. Não aguento mais! Tentarei com o/a/z próximo/a/z.

O que desconfiamos e que não está explícito na descrição é o martírio de ser pressuposto em sombras. Teresinha é, para este/a/z segundo/a/z, uma constante rememoração e ameaça de tudo que pode dar errado, logo, para não ser a realização premonitória da desgraça Teresinha pode fazer como muitos/as/zs, negar-se, imóvel e resignada/o/z a não ter e não ser nada além do que não se deseja. A ilusão de completude utópica, no/a/z pretendente anterior, cede lugar à certeza da falha destrutiva que o outro há de, porventura e com certeza, sempre representar. A esta violência contra sua necessidade de ser Teresinha, seja lá o quê ou quem isso seja ou signifique, sustentemos todos: não!

E agora e por fim, nosso/a/z terceiro/a/z pretendente:

O terceiro me chegou

como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada

também nada perguntou

Mal sei como ele se chama

mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama

e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro

e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro

dentro do meu coração

Pensemos na lista de coisas e/ou pessoas que chegam do nada. Cogitemos também sobre aqueles que não trazem nada, não perguntam nada, não possuem nome e que, ainda assim, possuem um desejo transparente, passível de adivinhação. Estabelece-se a última fantasia para nossa/o/z querida/o/z Teresinha, tornou-se mulher para um terceiro que a deseja justamente por ser mulher, seja lá o que isso seja para ela e para tal pretendente, ou neste caso, a mulher sob o desejo sexual, adulto e maduro. (Talvez...)

Exploremos mais detidamente esta fantasia. Teresinha era acima de tudo e há pouco tempo Teresinha, fato atestado por suas consecutivas possibilidades de recusa, algo que nos informava também sobre sua capacidade de não se apassivar aos desejos obsedantes de outros. No entanto, constatamos neste último encontro o surgimento de Mulher, como nome substantivado. (Eu te declaro marido e mulher!). E lá se foi Teresinha, cuja identidade prescrita era um mistério, mas que ainda assim possuía um nome próprio. Nominemos, então, Mulher, prazer em desconhecê-la!

Mulher, cuja alcunha a precede aqui devida, torna-se mulher-objeto de outro que a possui feito posseiro, cativa seus pensamentos, agora fusionados, em função da leitura telepática do que quer que este outro venha a querer e não do que ela/e/z verdadeiramente quer ou é. Não seria Mulher a versão ulterior de nosso/a/z primeiro/a/z pretendente? (O mundo deu suas voltas). Ao invés de ofertar bens e posses, Mulher dá-se por inteiro com aquilo que é insubstituível, seu corpo. Delineado sob molde único, corpo outrora de Teresinha, agora de Mulher. Escolha de Teresinha, respeitemos! Lembremos em ressalvas e suspensão que a entrega supostamente completa ao desejo de outro é por todas as vias ilusória, falida e temporária. Veremos muito em breve Teresinha reformulada, “encorporada” à versão 2.0 de si mesma. Quem sabe esquecendo de sua fila de pretendentes para simplesmente ser Teresinha?

Por Carine Mendes

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