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Estamos dispostos a nos reconhecer depois que tudo isso acabar?

Atualizado: há 3 dias




O isolamento social está transformando muitas verdades que conhecíamos sobre nós mesmos



Sinto que após este período de confinamento estaremos diferentes. Depois de passar dias e meses em nossa própria e constante companhia é natural que alguns sentimentos se aflorem, e que os problemas obscuros que insistimos em evitar surjam em rajadas. Como cada um escolherá lidar com essas mudanças é um processo singelo e particular, mas seja lá qual for a resposta que encontremos, é certo que após a tempestade já não seremos os mesmos.

A partir do momento que nos reconhecemos distintos, gostaríamos que os outros tomassem um momento para distinguir a persona que eles julgavam conhecer da que se posta diante deles pós-isolamento social. Essa aceitação será base das nossas relações e acredito que podemos tirar grande proveito desse avalanche. Até certo ponto, isso nos ensina a aceitar o outro como ele de fato é, já que nos conheceremos um pouco mais, depois de tanto tempo em interrupta presença do “eu”, e ao mesmo tempo, presenciaremos a ruptura de alguns padrões.

Nossas prioridades terão mudado, o que antes considerávamos supérfluo pode nem existir mais. O que mais sentimos falta revela nossos valores, e como nos relacionamos com essas transmutações anuncia nossos princípios.

O que faz sentido agora? As carências que (res)surgem são mensageiras do nosso ego? Despertam o obscuro adormecido? Em que medida somos escravos da nossa vaidade?

Se no início havia esperança de que essa pandemia passasse com a mesma pressa de um domingo, agora nos conformamos com um novo real que se finca no horizonte de um futuro distópico. Como nos rearrumaremos? Gosto de pensar no esforço que faremos para não repetir os mesmo erros, para perdoar mais facilmente, para se desculpar, para não deixar o orgulho à frente das emoções.

Estaremos dispostos a acolher o outro também? A entender que cada um passou por um processo diferente nesse meio tempo? Como não tomar como dado algo que nos é tão caro? O isolamento despertou carências de todas as espécies, e muitas vezes não encontramos os meios de expressá-las, nem mesmo de supri-las. Reconhecer essas lacunas é o primeiro passo para perceber o que já nos faltava, ainda que tentássemos preencher com outros materiais que não são próprios destes espaços. Esse trabalho emocional com o qual involuntariamente nos defrontamos ajudará a fortalecer e ressignificar nossos relacionamentos interpessoais e a estabelecer nossas posições.

Saberemos melhor o que estamos dispostos a aceitar, o que não iremos permitir que aconteça, porque distinguimos o que de fato buscamos no outro. Embora não signifique que esta será uma descomplicada caminhada ao novo “normal”, afinal ainda teremos que lutar pelo que acreditamos ser digno de permanecer em nossas vidas, e fazermos um esforço para comunicar o frescor das nossas possíveis recentes essências (ou o que restou delas).

Principalmente, atentarmos para como estamos alimentando e suprindo a nossa criança interior. Seja cedendo para a voz interior que anseia por um agrado, seja reconhecendo o desejo por ser acolhida, ou apercebendo a nossa pequenez dentro do vasto mundo que nem sempre é agradável. Todas essas referências são irradiadas pelas experiências que moldaram a nossa personalidade, e são os traços constitutivos das personas e máscaras que hoje carregamos. Como vislumbramos essas facetas internas e singulares conduzirá nosso processo de auto aceitação, e na mesma medida, enxergar as mesmas batalhas travadas pelo outro em seu âmago.

Acredito que se nos concentrarmos no que queremos melhorar, em qual direção pretendemos seguir, a nuvem densa que carregamos nas costas se esvaziará em pequenas doses. E em passos curtos conseguiremos não só nos reconhecer distintos, mas também acolher o outro.

Sara Costa


Instagram: @sarapedreira00

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