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Fragmentos



Era madrugada. 2h da madrugada. Ou 4h. Pedro não sabia, não lembrava quanto tempo havia caminhado até chegar naquela esquina.

Quando você se perde na introspecção, o movimento sequencial e circular do relógio deixa de fazer qualquer sentido. O ponteiro gira, e dizemos: 60 segundos se passaram. E o ponteiro volta a girar, pra dali a pouco chegar ao mesmo ponto. No fim das contas tudo é uma questão de giro. Um eterno e repetitivo giro. Que importa, então, se o ponteiro toca um ou outro número? E que importam os números? Os grandes números não são apenas infindáveis repetições de alguns poucos números existentes? Quando a angústia assoma o peito o tiquetaquear do relógio torna-se como o barulho do vento numa concha na areia. Vazio, sem qualquer significado pessoal ou qualquer ligação com a realidade afetiva, o que, no fim das contas, é tudo o que importa. Ao menos para Pedro, naquele momento, era tudo o que importava.

Os pensamentos orbitavam a sua cabeça, enquanto ele, parado numa esquina qualquer, observava o fluxo de carros e surpreendia-se consigo mesmo por estar ali, no horário em que até as galinhas dormem, pensando em questões tão repetidas, como o tempo. Era madrugada, e a cidade ainda estava em movimento. Uma cidade que não parava. Como o tempo.

Pedro havia saído para caminhar tentando fugir de si mesmo. Aquela conhecida angústia lhe tomou com maior intensidade aquele dia. Precisava respirar. O movimento da caminhada lhe proporcionaria uma literal saída da estagnação na qual a angústia lhe afundava, foi o que ele pensou.

Mil vezes já pensara sobre o tempo, sobre sua passagem ou nossa passagem sobre ele. Já discutira diversas vezes com amigos, sentados no sofá de sua sala ou na mesa de um bar qualquer. Tantas e tantas vezes se ocupou do “problema do tempo”. Conhecia muitas teorias e perspectivas sobre ele. Da física à psicologia, da filosofia à teologia. Mas agora tudo era diferente. Não foram reflexões de caráter metafísico que o levaram até aquela esquina. Desta vez ele sentiu o tempo. O tempo brotava de suas entranhas. Sentiu-se oprimido na sala de seu apartamento ao perceber que alguns anos se passaram desde que decidiu sair da casa de seus pais e morar sozinho. Sentiu-se feliz na época. Amava seus pais, mas sentia uma forte necessidade de caminhar rumo à independência.

Pedro sempre foi confiante em si mesmo. Determinado, firme em suas competências. Mas agora estava ali, aos 32 anos, sentado numa esquina qualquer, com uma enorme angústia em seu peito, elucubrando sobre o tempo e a solidão. Lembrou-se, no turbilhão de seus pensamentos, de Aquiles, o grande herói grego. Ainda na adolescência, quando pela primeira vez travou contato com a história da guerra de Tróia, foi tomado de profunda admiração pelo semideus que embora conhecesse seu destino, morrer jovem no campo de batalha, não fugiu da guerra. A morte viria para todos. Se teria que morrer, que morresse com glória.

Pedro era semelhante a Aquiles em sua intrepidez e determinação. Nunca fugia de um conflito. Os enfrentava de frente, como quem leva em si a certeza da invulnerabilidade. Mas há dois anos fôra ferido no calcanhar. Agamenon veio, travestido com a máscara do destino e arrancou-lhe sua querida Briseida. Em seu caso, porém, não havia qualquer Tétis a quem pudesse recorrer. As moiras eram implacáveis!

Pedro sentiu que algo havia se despedaçado para sempre dentro dele desde a morte de Carla. Tinham tantos planos juntos. Iriam se casar em breve. Pedro já sonhava com aquele apartamento ocupado, cheio de alegria, da vitalidade e do gozo intenso que só Carla podia proporcionar com sua simples presença. Mas então ele ouviu:

Câncer!

Uma pequena palavra. Seis letras que soaram da boca do médico em direção aos ouvidos assustados de Pedro e Carla. Os dois permaneceram inertes em suas cadeiras, enquanto cada letra forçava a passagem pelos tímpanos que resistiam numa batalha feroz da qual o desfecho já estava determinado.

Não há como lutar contra as palavras. São elas que nos matam dia-a-dia. As palavras que dissemos, as palavras que não dissemos e as palavras que nos dizem. Pois quando aprendemos a falar não aprendemos também que a morte existe? Adentrar no mundo da linguagem é perceber que muito não pode ser dito e mais ainda não pode ser entendido. É o vazio, a impotência, o limite. Em última análise, a morte. Foi isso que Carla instintivamente percebeu naquele momento. O seu corpo potente, que lhe proporcionou inúmeras conquistas e prazeres, com o qual venceu tantas batalhas, o corpo forte que destroçou tantos leões cotidianos estava sendo invadido e saqueado por uma pequena palavra. Um cavalo de Tróia com seis pequenos guerreiros estava dentro de sua fortaleza particular, atrás de suas muralhas.

Ali, na cadeira de um consultório médico, com os dedos entrelaçados aos de Carla, suando e sentindo o suor da mão de sua companheira, foi que Pedro se apercebeu da inutilidade das reflexões sobre o tempo. O que é o tempo, afinal? Essa pergunta só importa àqueles que nunca o sentiram. Àqueles que analisam o tempo como quem analisa um micróbio através da lente fria de um microscópio. Pedro já esteve muitas vezes atrás dessa lente, mas naquela sala, frente a um quase desconhecido de jaleco branco, olhando a agonia na face de Carla, Pedro verdadeiramente soube o que era o tempo. Cada gota de sangue bombeado por seu coração acelerado sabia o que era o tempo. O tempo estava no suor escorrendo lentamente em sua testa, estava no ar que ele aspirava com dificuldade, estava naquele desejo intenso de praguejar, de xingar o médico, de chamá-lo de mentiroso, e estava no impulso, que pouco a pouco tomava todo o seu corpo, de abraçar Carla com toda a força que tivesse, para que ela nunca partisse, para que ele pudesse, com a força de seu abraço, destruir aquelas pequenas letras que queriam privá-lo do futuro que ele havia planejado ao lado daquela mulher.

Mas Pedro não fez nada disso. Não teve forças para se mover. Era como se sentisse que cada mínimo movimento que fizesse pudesse antecipar o fatídico destino. Permaneceu imóvel, até que sentiu a primeira lágrima escorrer sobre a face e lhe salgar a boca. Então não pôde mais conter. Depois que algumas lágrimas esparsas encontraram o caminho para o exterior, uma torrente rompeu as comportas dos seus olhos e ele se entregou aos soluços descontrolados, desentrelaçando os dedos da mão de Carla, para tentar cobrir o desespero que marcava o seu rosto.

O choro de Carla era mais contido. Um choro abafado. Choro de quem ainda tem esperança de vitória, embora saiba que uma luta árdua vem pela frente. O choro de Pedro era um choro de quem se dá conta da corrosão do tempo, a deterioração a que está sujeita toda a matéria. A entropia. Pedro não chorava apenas por Carla. Chorava pelo tempo, chorava pela vida, chorava pelo ciclo de criação e destruição que parece compor a própria essência do universo.

Não é que Pedro não tivesse alguma esperança de que aquela batalha pudesse ser vencida, mas era como se pela primeira vez ele percebesse, enquanto o médico dizia “sentir muito” e estendia uma caixa de lenços ao avistar as primeiras lágrimas escorrendo nos rostos de Pedro e Carla, que a morte era real, que as perdas existiam. Ele sentia visceralmente, como se o câncer estivesse em seu próprio corpo. Mesmo que ele e Carla vencessem aquela batalha, ele sabia, no fundo, que a guerra contra a morte jamais poderia ser vencida. Que o fim do amor é a morte.

Dois anos se passaram e, naquela esquina fria, antes de o sol raiar, ao lembrar daquele trágico dia, Pedro culpava-se por não ter sido mais forte, por não ter contido as lágrimas, por não ter conseguido abraçar a mulher que amava, olhar em seus olhos e dizer que tudo ficaria bem. Uma nova torrente de lágrimas molhava o seu rosto ao recordar de sua fraqueza naquele dia e da impotência que sentiu nos dias e meses seguintes. Ele bem sabia que nada poderia fazer, que cada novo exame que mostrava resultados desalentadores e cada palavra de complacência saída da boca dos médicos, era mais uma linha do veredito que determinaria sua infelicidade, mas ainda assim, em seu íntimo algo lhe perturbava. E se tivesse abraçado Carla naquele dia? E se não tivesse soltado de sua mão, num gesto desesperado para conter sua própria dor? Será que algo seria diferente? Ele poderia ter impedido a partida definitiva da mulher que tanto amava? Na superfície de sua consciência ele sabia do absurdo dessas perguntas, mas ainda assim não conseguia parar de martirizar-se e pensar que, de alguma forma, tinha alguma culpa no que acontecera.

Lembrou-se então onde começara o fluxo de pensamentos que o levara a divagar sobre o tempo. Pensava na sua infância, uma infância feliz, até onde recordava, mas era exatamente essa felicidade que o atormentava. Uma felicidade tão distante, que às vezes lhe parecia um sonho fugidio. As lembranças felizes agora só lhe causavam saudade. E a saudade só intensificava a velha angústia.

O que fazer dali em diante? Como prosseguir? Como continuar trabalhando, conversando, rindo, caminhando? Como continuar vivendo se a mesma sombra da morte que levara Carla embora pra sempre, adentrou pouco a pouco em todos recônditos da sua existência? Temia olhar nos olhos dos outros e que vissem em seus olhos a escuridão, a ausência de vida, o desejo de se esvair da agitação cotidiana que Pedro julgava cada vez mais enfadonha.

Já fazia muito tempo que seu estado de espírito alternava entre a apatia, a angústia e a dor profunda. Não raras vezes precisava afastar-se de uma roda de amigos, por sentir-se sufocado pelos risos, piadas e gracejos descompromissados. Sob o pretexto de ir ao banheiro, encontrava um lugar qualquer para respirar e, muitas vezes, chorar.

O sol começava a nascer e Pedro não queria ser visto com o rosto inchado e molhado de lágrimas pelas pessoas que, com cada vez mais frequência, passavam de um lado a outro, iniciando suas rotinas de trabalho. Com um suspiro profundo conteve o choro e caminhou de volta ao apartamento. Ele também deveria sair em breve para enfrentar mais um dia. Mas naquelas condições, como poderia?

Sentou-se numa poltrona e fechou os olhos, na esperança de expurgar os pensamentos que o atormentavam. Mas não demorou muito para que o despertador do telefone tocasse, avisando que não havia tempo para descanso.O barulho estridente que soou daquele pequeno aparelho fez seu coração bater ainda mais descompassadamente. Velozmente. Num gesto desesperado Pedro lançou o aparelho na parede, espatifando-o em dezenas de pedaços. A angústia se tornou uma dor física insuportável. Ele precisava fugir novamente. Mas para onde? Sentou-se no chão, frágil, entre os pedaços do celular.

Ficaram ali, ele, as lágrimas, os fragmentos pelo chão.



Janderson Silvestre