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O bilhete




E abrem-se as portas. A manada estoura com o tropel avolumando-se. Têm pressa, muita pressa. Não sabem por que, só sabem que têm que andar rápido, muito rápido. Assim foram treinados na urgência, a constante falta de tempo e a necessidade quase que mortal de correrem. Alcançam a escada rolante. Direita, fique na direita! Tem que deixar a esquerda livre para trânsito. Mas se a escada é rolante, por que precisam correr por ela? Não sabem, só sabem que precisam correr. Okay, lado esquerdo livre. No chão um bilhete perdido faz parte da poeira. Tinha caído da bolsa da garota atrasada para a aula. Ora para lá, ora para cá, o destino faz com ele o que bem quer. Não é mais útil, ninguém o vê. E não é que o vento jogou-o no trilho? Não tem importância, está perdido para sempre, sozinho e abandonado à própria sorte. Que triste fim acabar assim, carregando no corpo as marcas das solas dos sapatos. É que ninguém tem tempo de olhar para o chão, nem para cima. O páreo não é para qualquer um, só pra quem é rápido. Cuidado, lá vem o próximo trem. Plataforma lotada. As portas abrem-se. Aglomeração. Tumulto organizado no entra e sai. As portas fecham-se. Lá vai o trem pelo túnel. Rápido, rápido que logo vem outro. A turba acotovela-se na saída. Avançam para a escada rolante. Salve-se quem puder! Direita, direita! O duro é que gostam. Se bem que...se bem que nem raciocinam. Para trás fica o bilhete vagando na sua inexistência. Pra lá e pra cá até, talvez, ser varrido pelo gari e acabar no lixo junto com outros iguais a ele. E pensar que já valeu para alguma coisa. Ninguém tem tempo para notá-lo. Não lhes interessa saber, são autômatos, praticamente os pés vão sozinhos. Só sabem que na megalópole é assim. O tempo é escasso, as pernas precisam persegui-lo, senão...Senão o que? Nem sabem o que. A massa individualista faz assim e todos a seguem, ela é quem manda. E nem percebem que amanhã é a mesma coisa, e depois, depois, depois....



Ligia Diniz Donega

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