Sobre costurar a Mística dos Encantados com Maria Toinha



Duas situações muito importantes começaram minha imaginação para o Mistério que minha avó, Maria Toinha, anuncia. Eu me lembro destas coisas como se tivessem acontecido há poucos instantes.

A primeira delas foi uma doutrina cantada pela minha avó enquanto emendava suas memórias. Era final de uma tarde de agosto e ela estava sentada numa espreguiçadeira no alpendre de nossa casa. A pata de vaca ficava de frente para os seus olhos. Ela cantava e fazia flores desabrocharem em nossa pequena árvore rosada. Eu estava sentado bem pertinho dela, debruçado sobre seus tesouros. Eu a via, ouvia, sentia, pedia que ela não parasse jamais. Foi quando ela teve a ideia maravilhosa de cantar a doutrina do Mestre Lorentino e me ensinar a sobre a doçura do Mar. A doutrina diz assim:

Eu venho lanceando do fundo do Mar

Que o vento zoa em meu laranjal

Já deu cinco horas que saí do alto Mar

Encontrei gente boa em meu laranjal

Eu venho lanceando do fundo do Mar

Dai força Lorentino em meu laranjal.

A imagem daquele laranjal tocou profundamente minha alma. Ela cantava e um outro mundo se abria diante de minha visão. O laranjal onde o Mestre Lorentino me chamava, revelava um passado onde Oxalá perfumava a terra com as flores das laranjeiras. Era o Mestre Lorentino que trazia esse perfume todas as vezes que baixava na coroa de uma Mãe de Santo ou de um Pai de Santo. Eu via aquele mistério florescer novamente através da cantiga de minha avó. Senti um toque para continuar aquela promessa em nosso tempo, pois o tempo de minha avó estava para acabar. Então pensei em escrever com ela sobre aqueles mistérios e ensiná-los através das imagens criadas pela poesia para as gerações que estão aqui e que ainda não conhecem os Laranjais de Oxalá nem a ilha onde mora o MestreLoretino.

A outra situação que me despertou para a Magia dos Encantados e que novamente transformou minha imaginação foi uma imagem que encontrei durante uma viagem. Na beirada de uma pista havia uma casa de barro que era habitada por um flamboyant. Aquela imagem me transportou para as memórias de minha avó e me mostrou presente e passado reconciliados. Vi que a árvore encantada mediava o contato entre o antigo e o novo. Ela se balançava sobre a casa, fazendo uma sombra sagrada. Suas raízes saiam do pé da parede de barro e se estendiam até o meio do terreiro. O vento levava as flores dos galhos do flamboyant até a pista. O preto do asfalto novinho ficava avermelhado e alaranjado. Eu estava ali. Senti que aquela imagem me dizia algo e procurei lhe ouvir. Fiz um retrato para continuar conversando com ela mesmo que eu me afastasse. Para mim algum mistério conduzia as flores desde a casa de barro até a pista. Meditei sobre isso.

Pedi que alguém pintasse aquela imagem que fotografei. Acredito que a pista representa o presente, a casa de barro é o passado da nossa gente e a árvore pode ser vista como uma Encantada que continua a trazer ensinamentos do Antigamente para o hoje. As raízes se alimentam do antigo e ainda assim entregam sua sustância para que flores desabrochem no flamboyant. Depois essas flores se deitam no asfalto novinho... há comunicação, conciliação, continuidades entre o descontínuo tempo.

Ao entrar naquela imagem percebi que as coisas recomeçam igual as nossas memórias, as nossas estórias. Os fios do passado são costurados com as linhas do presente. Os encontros se refazem, vivemos novas despedidas enquanto contamos as estórias. Eu aprendi que essa forma maravilhosa de reconciliar o antigo e o presente é vivido muito fortemente pelas árvores. E pelos Encantados, é claro.

Eu acredito que nós não escrevemos, nós costuramos. Foi assim que nasceu A Mística dos Encantados. É isso que alimenta a nossa necessidade de contar para não esquecer...


Marcos Andrade

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