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Oi, B. Como vai? Talvez seja estranho ler essa carta, se é que você um dia terá conhecimento da sua existência. Eu não te conheço bem. Na verdade, sei muito pouco sobre você, mas o que eu sei é suficiente para alimentar fantasias delirantes, ilusórias, falsas... você faz parte da minha imaginação (in)consciente sem nem saber. Utopias distantes. Nelas, você é admirável, digna de eterno fascínio, assim como deve ser na concretude injusta, ingrata e penosa da vida.

Você está presa na minha mente transtornada e faz dela um lugar mais suportável. Cada sonho e pensamento que você protagoniza, B, torna a sobrevivência mais leve. Eu consigo enxergar olhos cinzentos – como o nublado que cobre as nuvens nas tardes propícias à leitura despretensiosa –, cabelos loiros, dourados, bagunçados, apenas cabelos. Vejo a pequena depressão bem no meio do seu queixo, ela divide você em partes igualmente inebriantes. Serotonina...

Por que a sociedade tem que ser assim, B? Para você, não há tal obrigação, qualquer incômodo pode ser transformado, em meio a passeatas, manifestações, caminhadas, política... viva a revolução? O vermelho que você carrega representa a sua esperança em um futuro diferente. Você tem a coragem de lutar, B! Posso compartilhar essa bandeira com você?

Mas, por que parece tão ambíguo te manter dentro de mim? Você tem o direito de se libertar das minhas fantasias. Afinal, é por liberdade que você continua a pelear. O que é esse fascínio que eu sinto? Você quer se libertar, B? Uma jovem revolucionária como você não merece ficar presa a uma jovem insegura e egoísta como eu. Será que eu estou preparada para lidar com a abstinência de uma utopia ideal?


Algemas abertas. Cela vazia. Mente quieta. Liberdade.

E eu? Quando cumprirei minha sentença?


Com amor (?), A.


Alexia de Melo Miguel

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