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A última encerra



Ele falou com tanta convicção que tive a sensação de vislumbrar os raios de sol penetrando por entre a cortina do quarto: “tá um final de tarde bem friozinho, acho bom recolher o plantel logo para o galpão, senão os cordeirinhos vão sentir muito frio”... seus olhos miravam o potreiro ao longe, apreciando o amarelado que se estendia sobre o pasto... final de tarde na campanha é bucólico, principalmente no inverno... as aves indo para o pouso noturno... bandos de maçaricos sobrevoando, em perfeita formação, a nossa casa...

Meu pai foi criado naqueles mundos, quando as cercas eram em menor quantidade e, a liberdade, ampliava-se nas patas de um cavalo, tão somente. Contou-me, muitas vezes, a viagem que ele e meu tio fizeram, quando jovens, até India Muerta, cidadezinha uruguaia onde tinham alguns parentes. Na minha imaginação juvenil aquele fato se projetava, e igualava, às cavalgadas dos filmes de faroeste que assistia no cinema de meu bairro. Uma viagem de centenas de quilômetros, dormindo em galpões ou sobre os arreios em pleno descampado, improvisando uma pequena fogueira de bostas para aquecê-los durante a noite, pois, na maioria das vezes, não havia nenhum sinal de lenha. Hoje, me recrimino por não ter explorado com mais afinco todo o desenrolar daquela aventura (as minhas não lhe davam espaço). Um tempo em que os caminhos gaúchos se desenrolavam através das grandes propriedades.

Tive oportunidade de ainda apreciar um dos últimos marcos daqueles tempos: as duas figueiras no meio da invernada. Uma já tombada, mas que resistiu bravamente antes de se dissolver por entre o pasto. Na outra, ainda gurizote, muitas vezes subi, me sentindo um índio charrua vigiando todo o entorno. A história contava que ali havia morado um dos últimos escravos, então já alforriado.

Lembro-me de minha contrariedade inicial ao ter que permanecer, durante meus dois meses de férias, na fazenda. Invejava meus amigos que iam para a praia, irmanados na amizade e na busca de amores tão desejados. Porém, como tudo na vida, pouco a pouco, fui pegando gosto pela coisa. A imensidão da paisagem, fazendo com que sentisse, pela primeira vez, minha pequenez frente à natureza. A capacidade de captar cada pequeno sinal que aquele ambiente transmitia, a simplicidade em meio ao silêncio, as conversas no avarandado, ao entardecer.

Acidentes acontecem em qualquer lugar: até no Paraíso, Adão deve ter machucado a costela recém soldada ao tropeçar e ir de encontro a uma árvore. Pois, com meu pai, não foi diferente, naquele pequeno éden pampeano. Uma égua empinou-se dentro do galpão, derrubando-o ao chão. Além disso, pisou-lhe com a pata bem sobre a testa. Depois de alguns dias, no entanto, recuperou-se.

Anos depois, com a idade avançada, meu pai ficou impossibilitado de ir para a fazenda, o que lhe tirou uma boa parte do sabor da vida. A cidade não era seu ambiente natural, sentia falta dos grandes espaços, o olhar mirando, sem empecilho, o horizonte.

E a vida sempre pegando um atalho: o coice que tinha sofrido na fronte veio a se manifestar na forma de um tumor benigno que, em virtude das suas dimensões, necessitaria de uma cirurgia. “Tá um final de tarde bem friozinho, acho bom recolher o plantel logo para o galpão, senão os cordeirinhos vão sentir muito frio”. Provavelmente, não estivesse identificando, com clareza, que brete era aquele no qual o conduziam. As laterais, ao invés das grossas tábuas, eram brancas. E o entardecer, repentinamente, explodira em luzes vibrantes vindas do teto. Por fim, a última porteira se cerrou.

Os médicos e enfermeiros que o conduziram para a sala de cirurgia decerto não perceberam que ele transitava por outras paragens: as paredes agora se estendiam em longas planícies, os sons distantes de relinchos e mugidos (inadequados?) abafavam qualquer gemido... Enquanto isto, encerrava suas ovelhas pela última vez...



Renato Soares de Lima