Buscar

A caixa de metamorfose

Atualizado: Jul 17



[i]A Caixa de Metamorfose

Pat (Bradley Cooper) é um rapaz divorciado que ao pegar sua ex-mulher com outro cara em sua própria casa tem um surto de estresse emocional violento e é detido no hospital psiquiátrico. Com o passar do tempo, Pat decide melhorar ao acreditar na força do pensamento positivo. Desta maneira, consegue, por intermédio da mãe, em processo judicial, libertar-se para continuar seu tratamento em domicílio. Vale lembrar, sua motivação de melhora, na realidade era a esperança de reatar com sua ex-esposa. Entretanto, em um jantar na casa de um casal de amigos, Pat acaba conhecendo Steffany (Jennifer Lawrence), uma mulher de personalidade única e extravagante. Contudo, também emocionalmente instável em decorrência da viuvez traumática. Desse momento em diante, ambos começam uma relação singular, por intermédio da condição de Pat conseguir se comunicar com a sua ex, em troca treinaria e participaria com Steffany de um concurso de dança. Por fim, esses encontros entre eles reverbera em uma crescente construção afetivo-emocional amorosa.

Levanta-se como pano de fundo ao debate as relações entre o medo que pode construir-se nos laços emocionais afetivos e os mistérios da neuroplasticidade como ferramenta de desenvolvimento cognitivo. Desse modo, como a superação de traumas vinculados a medos de relacionamentos pode reelaborar-se por neuroplastia?

Neuroplastia, segundo o livro Neuroscience Science of the Brain, é a habilidade que o nosso cérebro tem de mudar. Nesse sentido, neuroplasticidade por analogia com o modelo de Plastina (para o dicionário Priberam, PLASTINA, é uma substância muito plástica, composta de argila, de cera ou outros materiais, empregada na modelação) que pode constantemente se reformar. Logo, o cérebro pode se modificar por diferentes razões durante nossa juventude, como, outrossim, ao longo da vida. Ademais, existem vários mecanismos de plasticidade que ainda estão em investigação pela ciência. Outra definição de um artigo publicado na revista Temas em Psicologia da SBP (Sociedade Brasileira de Psicologia), a neuroplasticidade ou plasticidade neural é definida como a capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura e função em decorrência dos padrões de experiência. Desse modo, neuroplasticidade pode vincula-se ao tema do medo quando este é remodelado pela "Caixa de Metamorfose" (Cérebro) e implicar em mudanças de comportamento.

O medo, de acordo com Ohman e Mineka (2003), tem seus primeiros sinais remotos na ancestralidade humana, período o qual o instinto de sobrevivência e adaptação definia quem era capaz de sobreviver às adversidades pré-históricas. Nesse contexto, o medo é ativado biologicamente, chamado por cientistas de emoção corpórea. Para Cannon e Philip Bard, são um conjunto simultâneo entre a resposta física e emocional do corpo. No filme o lado bom da vida, Pat apresenta constantes conflitos emocionais ao se deparar com ambientes dos quais fez parte, como a lembrança das fitas do seu casamento perdidas. Nota-se um misto de angústia, medo e pânico quando Pat imagina que poderia ter perdido o registro de memórias do seu casamento. Com isso, sua conduta na cena mistura-se às emoções instáveis. O episódio termina em violência descontrolada contra a mãe e pai, que tenta acalmá-lo. Ao analisar o contexto desta família, depreende-se que esses comportamentos instáveis derivam do pai, possivelmente, em espelhamentos. Deste modo, o histórico paterno de problemas com jogos viciantes e a pouca comunicação na relação afetiva com filho podem estar ligados às desordens de Pat, inclusive seus medos.

Em um experimento de Susan Mineka para explorar o medo apreendido, ela explica que praticamente todos os macacos selvagens têm medo de cobra, ao contrário dos de laboratório. No entanto, em testes os filhotes que observavam seus pais ou amigos com medo de pegar alimentos próximos a serpentes, tendiam a repetir comportamentos semelhantes. O mesmo ocorre com a visão cristalizada de Pat sobre a conduta moral de Steffany, no qual o medo o torna intolerante a comportamentos cujo potencial social julga como promíscuo. No entanto, naquele momento, era importante não se fechar em noções absolutas e estar mais aberto a questionamentos e debates.

Como mencionado anteriormente, o medo é adaptativo. Desse modo, este sentimento pode-se dividir em dois aspectos, o positivo e negativo. No primeiro caso, o medo é responsável por manter nosso organismo a salvo de ameaças, com ativação da adrenalina e noradrenalina nas glândulas suprarrenais. Por exemplo, quando Pat está para jantar com Steffany, o diálogo entre os dois se desconstrói e ofende Steffany, com isso ao sentir-se ameaçada, ela destrói toda a mesa no restaurante e em um impulso de luta ou fuga, escolhe fugir. O ato interposto por ela permitiu reconstruir a visão preconceituosa de Pat, já que ele a notava como promíscua, quando na verdade, aqueles "toques" sedutores eram só um mecanismo próprio de defesa por medo de sofrer com a solidão. Por outro lado, o medo pode bloquear a remodelação neuroplástica, como foi provocado pela obsessão de Pat por sua ex. Portanto, o sentimento que o impede de remodelar novas conexões afetivas, como rejeitar momentos de prazer e desejo por outras pessoas, justifica-se por ainda estar submerso em conexões antigas.

Então por qual motivo a “Caixa de Metamorfose" se transforma? E qual é sua relação com as emoções? "...o cérebro muda a própria estrutura, aperfeiçoando seus circuitos de modo que fique mais apto à tarefa proposta... A metáfora do cérebro máquina, um órgão com componentes especializados…" (DOIDGE). Visto sob essa ótica, o afeto, as relações e o compartilhamento de momentos com o outro pode reelaborar conexões doentias como era o caso das obsessões e compulsões de Pat pelo seu passado fictício, pois tentava se encaixar em um modelo afetivo perfeito para sua ex-esposa, que reclamava constantemente da sua personalidade. Para o protagonista ela o traiu porque ele não era o homem ideal e, por isso, precisava mudar, não por ele, mas por ela. Todavia, trazer à tona sentimentos do passado sem antes fazer uma análise madura de quem se é nesse novo processo, pode acarretar, como no caso de Pat, em desordens emocionais.

A vivência humana cultural e afetiva entre um grupo ou casal pode remodelar todo arcabouço plástico. Desse modo, Doigde defende o amor romântico como uma poderosa ferramenta de ativação dopamínica, em que se consolida uma mudança plástica. Por isso, o sujeito afetado pelo amor romantiza o mundo quando está apaixonado, seja uma pessoa ou outro foco. Além disso, " a paixão é um dos mais poderosos combustíveis da vida humana. É por meio dela que podemos transformar qualquer obstáculo em oportunidade… modificamos nossa fisiologia a fim de atingir um estado interno de prazer, motivação, foco e determinação." (PENTEADO). Assim, corporalmente, reviver um amor é remodelar novas conexões. Entretanto, para remodelá-las sem atingir o outro com seu passado e medos, é necessário a vivência do luto. Para Pat o bloqueio de não enfrentar a realidade o impediu até de se permitir um novo laço afetivo com Stafanny e recodificar/transformar sua caixa isolada na metamorfose de novas conexões afetivas.

Destarte, a superação de traumas pode e deve ser enfrentada à luz da neuroplastia à medida que o sujeito estiver imbuído de disposição à mudança, autoconhecimento e determinação para superar cada obstáculo que vier a desequilibrá-lo no caminho.


Son Farias

[i] Durante minha trajetória acadêmica na UFAL Palmeira dos Índios, paguei duas disciplinas relacionadas à antropologia com o Professor Dr. Mayk Andreele do Nascimento. Deste modo, o termo Caixa de Metamorfose é inspirado na desconstrução sociocultural dominante do século XXI que traçam o pano de fundo defendido no texto com foco na neuroplastia do medo. Por fim, recebi também influência de Raul Seixas com a canção Metamorfose Ambulante. Em outras palavras, Caixa de Metamorfose, faz alusão a um sujeito que pode por meio do esforço individual, associado ao grupal, remodelar sua construção social de mundo.


REFERÊNCIAS:

DOIDGE, Norman. O cérebro que se transforma: como a neurociência pode curar pessoas. tradução Ryta Vinagre.12° ed. Rio de janeiro: Record, 2019.

MAYERS, David G. Emoção, estresse e saúde.

PESSOA, Vilmarise Sabim. A Afetividade sob a ótica Psicanalítica e piagetiana. 2000.

PENTEADO, Caroline. Emoção estimulante. Psique. editora escola. n. 156. p. 54-60.

PRIBERAM DICIONÁRIO. Disponível:

https://dicionario.priberam.org/plasticina . Acesso em 27.05.20.

HAASE, V. G. LACERDA. S. S. Neuroplascidade, Variação intereindividual e recuperação funcional em neuropsicologia. Temas em Psicologia SBP. V. 12. n. 1. 2004.

SCIENCE OF THE BRAIN: an introduction for young students. British Neuroscience Association Europam Dana Alliane for the Brain. United Kingdom.2003.

CALLEGARO, Marco. Os Benefícios do Amor.