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Autoritarismos e cultura - um ódio tão ancestral quanto nada latente

Atualizado: Nov 10





“(...) Et par le pouvoir d’un mot /

Je recommence ma vie /

Je suis né pour te connaître /

Pour te nommer //

Liberté” - Paul Éluard

“(...) E ao poder de uma palavra /

Recomeço minha vida /

Nasci pra te conhecer /

E te chamar //

Liberdade” - Paul Éluard

(Tradução de Carlos Drummond de Andrade

e Manuel Bandeira)

Temos visto atualmente, no Brasil e no mundo, um movimento de repulsa à arte e à cultura, fruto de um visceral reacionarismo, o que se distingue do conservadorismo. Tal onda vem sendo denominada de anti-intelectualismo, melhor chamá-la anticulturalismo, e caracteriza-se por uma reação às conquistas civilizatórias, libertárias e estéticas dos últimos cem anos, se traduzindo num esforço concentrado de destruição. Com denodo e crueldade alguns detentores do Poder tentam - e, espero, não conseguirão - reduzir a pó anos de construção de marcos civilizatórios.

No caso da nossa aldeia, é evidente que estamos vivendo sob um governo de viés autoritário, importante dizer que, de minha parte, o horror que sinto, não é consequência de alguma frustração por tudo aquilo que abomino em ação e pensamento político e cultural, se é que são capazes de algum, ter chegado ao Poder. É do jogo, não reclamo, sou convictamente democrático, mas, em regra, regimes autoritários, mesmo quando travestidos de novas formas, como em nosso tempo, não se diferenciam por rostos muito distintos no trato do assunto, tenham a coloração que tiverem, pois conhecemos ditadores para todos os gostos, que nutrem, ou nutriam, verdadeiro horror à cultura, de Stalin a Hitler, passando pela nossa ditadura. E é isso que me causa horror.

O problema é que sequer estamos vendo algo próximo a uma construção ideológica, ainda que não a nosso gosto, o que temos visto, assustados, é, sim, um inefável prazer em destruir, demolir, para nada construir sobre as ruínas que deixam atrás de si; ódio, enfim, para sobre ele erguer um edifício mórbido e cruel, e confesso meu pânico com esse esforço destrutivo, esse ódio à inteligência. Mas, será esse ódio apenas o fruto de frustrações mal resolvidas, como no caso Hitler, um pintor frustrado? Ou existem outras causas para esse ódio à cultura e à arte?

Várias são as nuances e motivos, e haverá quem escreva páginas e páginas sobre o assunto, entretanto, dentro dos limites que impõem meu propósito e este artigo, gostaria de destacar alguns pontos que, a meu ver, justificariam esse ódio ancestral, ultrapassado o fato de ser o artista um irrequieto, libertário, o que, de resto, é fruto do que abaixo discorrerei.

Um deles é o mais óbvio: a cultura como forma de afirmação e resistência.

Calma, não pretendo falar por jargões, muito menos cair em irritantes modismos, mas do fato insofismável que uma cultura forte é vital, não só para o desenvolvimento espiritual de um povo, sua alma e personalidade, como também para a sua afirmação no contexto das nações, sua sobrevivência e independência, e a sua existência mesmo, pois uma identidade criada entre sua gente é um totem a ser preservado, orgulhoso motivo de por ele se lutar.

Mais do que isso, a cultura de um povo, ademais de ser uma forma de resistência ao opressor, seja ele externo ou interno, é resistência em si mesma, uma cultura forte faz forte a gente, mesmo em um país fraco, econômica e militarmente.

E isso os autoritários não podem suportar, pois além de dificultar-lhes o parco raciocínio, atrapalha seus planos de poder. Não é à toa que tentariam, e, às vezes bem tentam, caso fossem providos de “engenho e arte”, criar uma estética própria, sobre a qual poderiam ter pleno domínio, base para fincar suas raízes. Todavia, fora dos domínios das ideologias e das religiões, todas, ou quase todas, tendem ao fracasso, e como se uma vingança eles despejam seu ódio sobre os criadores, os tomando como inimigos.

A História é farta de exemplos dessa resistência pela cultura, e a resposta para a questão acima, paradoxalmente, talvez esteja presente em algumas perguntas e exemplos:

Por que, em condições igualmente adversas e covardes, frutos da escravidão, do exílio e da diáspora, a herança das culturas africanas nos influenciou, e ao mundo inteiro, é inegável, tão mais fortemente que a dos nossos índios?

Caso queiram outra comparação - e evito a equivocada tentação de chamá-la homogênea, “entre índios”, pois foram os colonizadores que unificaram culturas tão diferentes sob a mesma denominação de “índios”, pensemos nos povos da chamada “América Espanhola” (outra denominação esdrúxula), cuja permanência cultural é até hoje sentida pelas ruas de suas cidades.

E por que, afastando-nos um pouco, a cultura grega sobrepôs-se ao Império Romano, povos acerca dos quais alguém disse que “os vencidos venceram os vencedores”?

Chegando outra vez mais perto, geográfica e cronologicamente, na América Central podemos verificar um fenômeno interessantíssimo, muito semelhante aos gregos, da permanência e resistência de um povo pela cultura ante um inimigo mais poderoso, sobre o qual valerá nos determos um pouco: dentre os povos que ali viviam, os mexicas eram comercial e militarmente mais fortes que seus contemporâneos. Suas crianças eram desde cedo treinadas para a guerra, seus cordões umbilicais, por exemplo, eram enterrados no campo, “onde se travam as batalhas” e, aos dez anos, raspavam-lhes os cabelos, deixando apenas uma mexa, que só poderiam tirar aos dezoitos, quando capturassem um prisioneiro de guerra, além de outras vantagens que só lhes eram concedidas a cada captura do que viam como inimigo (Hugh Thomas - “The Conquist of Mexico” – 1993).

Dizia uma canção de seu povo, e essa tradição poética não era exatamente mexica, como veremos logo abaixo: “Solo esto quiere mi corazón / la muerte en la guerra” (Cantares Mexicanos). Um povo guerreiro, em resumo.

E esse povo guerreiro submeteu os tezcocanos, os tlaxcaltecas, acolhuas e tepanecas, e, em especial, os zapotecas, formando impérios e imperadores, como Montezuma I, Axayácatl (náuatle: "Máscara da Águia") e Montezuma II, cujas lembranças devem ter doído por várias gerações de espanhóis. Aqueles últimos, os Zapotecas, foram, sim, derrotados ou melhor, submeteram-se a uma aliança que traduziu-se em derrota, mas a civilização que dessas transformações e domínios resultou, como identidade cultural e histórica, ficou conhecida como “cultura asteca”, na verdade, denominação generalizadora, dada pelo cientista Alexander von Humboldt, no início do século XIX, e seria bem mais apropriado chamá-la “cultura da Mesoamérica pré-colombiana”, pois essa herança foi legada principalmente pelos povos derrotados, e não pelo império mexica.

Entre outras realizações, como pirâmides e calendário, a cultura dos povos derrotados foi que nos deixou várias formas de expressão estética, e destaco a excelente poesia, conhecida como asteca, mas cujo poeta ancestral foi Tlaltecatzin de Cuauhchicano, na verdade, ora, um tezcocano, não um mexica, autor de belos versos como: “que no vaia yo / al lugar de los descarnados (...) Yo solo así habré de irme, / con cubierto mi corazón. (...) Que sea así, / y que sea sin violencia” (“Maca niya / ompa ximohuayan. (...) Zan yuh niyaz / xochihuiconticac ye noyolio (...) Zan ihui ya azo / ihuan in ihuiyan - (Tradução Miguel Léon-Portilla - “Trece Poetas del Mundo Azteca”, 1978, Universidad Nacional Autónoma de México). A diferença, tanto estética quanto temática, dos versos belicosos acima transcritos salta aos olhos.

São, enfim, múltiplos os exemplos, e os dominadores – sejam eles colonizadores, povos guerreiros, caciques, reis, ditadores ou governos com pendores autoritários - sabem, talvez até inconscientemente, disso, e tremem, numa fusão de medo e ódio: como poetas ousam desafiar o fero peso do ferro das armas? Tanto é verdade que a primeira coisa que faz um ditador é instituir uma severa censura à produção de seus artistas, e muita vez aprisioná-los e matá-los, como fez Franco a Lorca. Inocente coincidência?

Notem que isso tem umbilical ligação com a língua, elemento fundante de um povo, sua identidade e resistência, e a perseguição aos poetas também é prova disso, tão frágeis, os poetas, que têm como armas apenas as palavras. E disso bem o sabiam os nossos colonizadores, que dotaram outra eficaz forma de dominação cultural, além da religiosa com suas trágicas (e cruéis) tentativas de “catequese”. Várias foram as formas de violência, mas coloco entre as piores, excetuando-se as físicas, por sutil, a cultural, como o uso da língua como instrumento de dominação.

Os códigos linguísticos de um desses grupamentos foi apropriado para a “aproximação” entre o colonizador e as diversas e heterogêneas tribos: uma só língua deveria substituir as demais faladas pelos diversos povos que habitavam estas paragens, uma “língua geral”, ou “língua franca” (o que a faz semelhante ao náuatle, dos mexicas, também uma língua franca), utilizada como forma de dominação: o “nheengatu” (etimologicamente “língua boa”, em antinomia a uma “língua má”) esfacelando a diversidade e, por conseguinte, as respectivas identidades. Comparo esse ataque à difusão da sífilis, que tantos índios matou.

Essa destruição de culturas incipientes, foi levada a termo, não tenho dúvidas disso, conscientemente pelo colonizador, numa evidente tentativa de domínio ideológico e religioso, que, entretanto, também tinha motivos, digamos, menos nobres, tanto por parte dos colonos, como dos Jesuítas, estes, com as “melhores intenções”, sem dúvidas, enquanto ensinavam os indiozinhos a tocar flautas “eruditas”, pequenos e nus arremedos de vivaldis, forravam os cofres d’El Rey, das obras de Deus e do Santo Ofício, além do próprio cofrinho das “almas perdidas”, aproveitando-se da imunidade alfandegária e contrabandeando ouro, que ninguém é de ferro.

Inegável que alguma resistência física houve - e um ou outro bispo devorado prova que a antropofagia também pode ser forma de resistir - por parte desses povos, mas ela foi massacrada psíquica e culturalmente, tudo em nome de Deus. Sendo econômica, militar e, no que nos interessa, culturalmente falando mais fracos os nativos, desigual foi a luta e escassa sua herança. Dessa forma, praticamente foi aniquilada uma cultura ainda em formação, com a mais covarde arma que pode usar um colonizador: destruindo a identidade do colonizado, sua cultura e sua língua. Compare-se outra vez com a permanência da herança africana em nossa cultura, de seus povos e suas realezas (penso em Chico Rei), nossos ancestrais, e a importância de uma cultura forte como resistência saltará aos olhos.

Cada vez mais me convenço que a cultura é uma das formas mais eficazes, porque não sanguinolenta (“y que sea sin violência”, cantou o poeta tezcocano), de resistência ao invasor, ao ditador, ao autoritário, que, por isso mesmo, a odeiam.

Todavia, essa preocupação também se refere, embora de forma mais sutil, a outra forma de dominação: o chamado “mundo globalizado” (que nada tem a ver com um mundo universalizado, bela utopia), pois negam existência às culturas dos povos economicamente mais frágeis, logo, dotados de meios de comunicação menos poderosos, para os submeterem a uma homogeneidade cultural, que se traduzirá noutra forma de domínio, perdendo a necessária diversidade e não se consubstanciando numa real universalização, mas num massacre, instrumentalizado pela inapropriadamente chamada “cultura de massas”, a ser mais corretamente denominada, “indústria do entretenimento (falo disso em outro artigo).

São formas sutis de dominação, aí incluída a escassez da democratização do saber formal, pois esta acentua os riscos da massificação cultural, forma, como demonstrado, de terror e domínio das gentes.

E quando os meios de comunicação de massa se aliam a um projeto autoritário, eis o horror instalado. E se acaso essa fatal aliança não for possível, ou quando não suficiente, os ditadores têm pressa, preferindo a via mais curta: a censura, a opressão e o sufocamento. A destruição e a morte. É o que temos visto.

Por derradeiro, há outro motivo para esse ódio à cultura: o simbólico, essência primordial da arte. O símbolo é, por sua própria natureza, polissêmico, inapreensível às mentes mais tacanhas. O antiempírico do simbólico é o que fascina e justifica sua existência, o símbolo demanda interpretação e não aceita conclusões que se querem definitivas, o símbolo, a sua interpretação sempre irrequieta, é o oposto da forma de pensar, se é que têm alguma, dos autoritários e dos ditadores, para eles, o inapreensível em códigos preestabelecidos, aquilo que foge à ordem unida do pensamento único, de resto incompatível com o simbólico, deve ser eliminado, por perigoso, por ameaçador, por perturbador. A despeito de interpretável e apreensível, o símbolo não pode estar preso a uma leitura unívoca, isso seria a sua negação e sua morte, uma contradição em termos, numa frase: o que é livremente apreensível não admite o aprisionamento.

Este artigo pretendeu elencar alguns motivos do ódio e do horror que ditadores e autoritários em geral têm das artes, dos poetas e dos escritores, queimando livros, e, sob o tacão de seus coturnos, censurar os seus autores, encarcerá-los, e, se não suficiente, assassiná-los.

A Cultura os ameaça por ser forma de resistência, e isso eles sabem, ainda que intuitivamente, e por simbólica, inapreensível, de vocação libertária. Por isso são irrequietos os artistas, rebelados por natureza, inconformados. E também por isso incomodam tanto.

Liberdade, como acentuou o poema de Éluard que nos serviu de epígrafe, é uma palavra terrível, perigosa, que deve ser banida dos dicionários, e os que a proferirem, censurados e presos. Ou mortos.


Lúcio Autran


Nascido em 1957, no Rio de Janeiro, capital, há dez anos mora em Resende, sul do estado.

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