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Sofra, sim



Jorge Claudio Ribeiro

professor, jornalista e escritor


Vejo frequente manifestação de gente negacionista a proclamar que não lê mais jornais, deixou de assistir a noticiários da TV e do rádio porque “a mídia só traz notícia ruim, só quer conspirar contra nosso presidente”.

Isso não é verdade, minha cara, meu caro – falo diretamente a você. Primeiro, porque as notícias são ruins mesmo, cada vez mais péssimas, e enfiar a cabeça no buraco só torna a avestruz mais vulnerável. Em segundo lugar, lá no fundo você sabe que invocar o inominável não o isentará de beber desse imenso oceano de sofrimento (Deus está vendo).

Então, recomendo: sofra, sim. Não tenha medo da dor, não desvie os olhos da foto do idoso que morreu (braços abertos como um crucificado) no chão da UPA em Teresina, sem leito disponível. Chore com a desalentada enfermeira Polyena Silveira (moderna Pietà) que, sentada a seu lado, cuidou dele, em vão. Não vire o rosto para a desgraceira brasileira. Afinal de contas, você tem a veleidade de ser a única pessoa feliz durante esta pandemia?

Nenhum subterfúgio, nenhuma fake news, justifica fugir da empatia. “Humano sou, e nada do que é humano me é estranho”, disse o poeta romano Públio Terêncio. Pois sofrer a dor do outro, mesmo que deprima, é o que nos torna humanos. Se tentarmos escapar disso, nos embotamos, regredimos, nos perdemos de nós mesmos.

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