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Ela dança, eu danço



Bem, hoje vou contar para vocês a história da Maria. Uma história de valores, perdas, conquistas, dificuldades e superação. Bom, não necessariamente nessa ordem. Quero, que você entre comigo no ritmo dançante dessa história. Ah, desculpe-me, estou me antecipando demais.

Maria das Dores Nascimento é órfã de um pai que nunca soube quem era. Sua mãe, Lourdes, saiu do interior do país para a capital do trabalho, fugindo das dificuldades e em busca de melhoras. Acabou indo morar em uma comunidade dominada pelo tráfico. Coitada! Mesmo assim, ela tentou criar sua filha, seu benquerer maior, com os melhores valores. Tentou evitar ao máximo que gaviões roubassem a sua menininha. O que ela estava conseguindo com muito esforço. Até agora.

Nessas comunidades, como vocês sabem, sempre há bons projetos para afastar as crianças do mundo das drogas e de uma morte certa e precoce. O ruim é que elas não conseguem fazer isso com todo mundo. O que eu acho uma lástima. Mas enfim, deixemos de divagações e voltemos à história. Então, a Sr.ª Lourdes decidiu matricular Maria em um desses projetos. Supervisionou tudo de antemão. Precisava conhecer quem estaria de olho em sua preciosa filha, enquanto ela não estava.

Maria desabrochou no Dance Music. A música, o ritmo e a dança eram uma parte integrante do seu DNA. Tenho certeza que ao examinar seus exames de sangue, os técnicos de laboratório e cientistas ficavam surpresos ao verem suas células dançarem. Quando ela ouvia uma música, era como se o mundo lá fora não existisse e seu corpo bailava instintivamente nos movimentos corretos sem nenhum esforço. Isto lhe rendeu uma bolsa em uma boa escola de dança, em um bairro de classe média alta.

Nesta nova escola de dança, tinha um professor bonitão. Nas palavras de Maria, não nas minhas. Rogério, esse era seu nome. Um rapaz moreno de uns vinte e poucos anos, alto, forte, mas não tão musculoso, meigos olhos verdes, sorriso de propaganda de pasta de dente, cartilagens no lugar de ossos, já que ele fazia movimentos durante as aulas de dança que eu, certamente não conseguiria. É, acho que posso dizer que ele é bem-apessoado. Bem, isso não importa. O que importa é que ele percebeu o enorme potencial de Maria e decidiu inscrevê-la em um concurso de dança.

A menina do interior ficou sem palavras ao saber que teria a chance de mostrar seu talento e, de quebra, ainda poderia receber uma boa soma em dinheiro. Ela e sua mãe não se preocupariam com as contas por um longo tempo. Isso era bom. Muito, muito bom tendo em vista que estavam atoladas em dívidas.

Mas chega de blá, blá, blá e vamos ao que interessa: o momento atual. O grande dia. O dia da revelação para o mundo de uma grande estrela da dança! O dia de ganhar o prêmio! O dia do grande concurso. Maria passara uma noite de rainha, só que, mais no trono do que na cama. Pelo menos estou tão vazia, com a barriga tão chapada que meus trajes ficarão perfeitos no meu corpo. Foi com esse pensamento que Maria rejeitou o alimento que sua mãe insistia em passar por sua garganta entalada.

Este dia era a oportunidade de Maria. E ela sabia disso. D. Lourdes sabia disso. Toda a comunidade sabia disso! Pois sua mãe fizera questão de contar na igreja, na feira, no supermercado, no bar do Seu Mateus, no jogo de futebol da quarta, na venda da D. Tiana, a fofoqueira mor da comunidade. Até eu fiquei sabendo! É por isso que estou contando essa história para vocês. Ou por que acha que estou aqui?

Ela teria sido mais eficiente se tivesse colocado na rádio da comunidade. Mas… espere um minuto. Quando Maria estava saindo de casa, a rádio da comunidade anunciava a quem ainda não tinha ouvido que uma nobre integrante do morro participaria de um concurso na zona chique da cidade e convocava a todos para marcarem presença e torcer por ela. É, D. Lourdes, como uma boa mãe orgulhosa, fizera o trabalho completo.

Dizem que quando as pessoas estão nervosas sentem borboletas no estômago. Mentira! Pensou Maria. Ela sentia como se tivesse engolido um pé de mandacaru que lhe espetava agulhadas a cada movimento seu enquanto descia as inúmeras escadas e becos da comunidade até o ponto dos transportes coletivos.

— Está nervosa? — Rogério recebeu Maria com um sorriso encorajador à porta da Quadra de Esporte Getúlio Vargas, local do concurso de dança patrocinado pela Prefeitura.

— Não! — ela respondeu ignorando o mini-Maria-anjinho em seu ombro, chamando-a de mentirosa.

Rogério levou-a ao camarim improvisado atrás do palco armado no fundo da quadra. As arquibancadas estavam sendo, gradativamente, lotadas e a balbúrdia prometia ser enlouquecedora, desafiando a concentração de qualquer um. O camarim estava repleto de meninas e rapazes que corriam de uma arara a outra em busca de seus trajes. Maria estancou à porta. O sentimento de que ali não era o seu lugar não poderia interferir na decisão de que era preciso fazer tudo pelo prêmio, pelo bem dela e de sua mãe.

Ali, havia meninas loiras, morenas, negras, ruivas... Algumas, de narizes empinados, pareciam flutuar enquanto desviavam-se das outras como se fossem pegar alguma infecção. Alguns rapazes estavam ao fundo em uma rodinha, cabeças baixas cochichando, os olhares espichados para uma bela morena. Seu vestido curto, colado e prateado realçava suas curvas e iluminava o ambiente, envolvendo-a em uma aura branca. O camarim estava repleto de movimento, gente, cor, brilho, tensão. Todos almejando o prêmio, reconhecimento, glamour...

— O que estou fazendo aqui? Não tenho a menor chance! — Seu maior medo, o de fracassar diante da Comunidade que viera lhe prestigiar e depositava nela tanta fé, fez seus pensamentos jorrarem por seus lábios em um sussurro angustiado.

— Maria! — As mãos quentes de Rogério seguraram seus braços, virando-a para ele e forçando-a a encará-lo. — Eu acredito no seu potencial. A música corre em suas veias. — Ele pousou a mão em sua cintura aproximando-a dele e fazendo seus quadris movimentarem no ritmo de uma música imaginária. — Dance com o coração. — Disse-lhe tocando o local onde aquele órgão pulsava frenético e depois levou sua mão por seu rosto perplexo até tocar sua cabeça. — Não pense, apenas sinta a música e deixe ela te levar.

Eu estou vendo demais ou rolou um clima aqui? Sabe, este pensamento também passou pela cabeça de Maria e agora a coitada estava mais confusa do que confiante. O toque do seu professor de dança a anestesiou mais do que as palavras que ele disse. Se a intenção dele era distraí-la do concurso e fazê-la pensar nele, Rogério conseguira! Ah, eu quero só ver como isso vai terminar.

Todas as garotas da Escola de Dança Flor de Mandacaru, que Maria frequentava, tinham uma queda pelo professor gostosão. Mais uma vez eu repito, nas palavras dela, não nas minhas. Não pega bem eu dizer algo assim. Bem, o que importa é que Maria era a única que não demonstrava seus delírios ocultos. Escondidos até dela mesma, diga-se de passagem. Maria sabia que não tinha chances com Rogério. Ela vinha de uma comunidade, família humilde, não era bonita. Porém, as mãos um tempo a mais na sua cintura, os olhos nos olhos soltando faíscas, o balançar dos quadris... Me pareceram sinais. A vocês, não?

Bem, deixemos de trololó e vamos continuar com a história. O concurso consistia na apresentação paralela de três concorrentes em vários estilos de dança e ao final de cada uma delas, ocorria a eliminação de dois participantes. Antes que Maria pudesse parar para refletir sobre o que estava acontecendo entre ela e seu professor, chamaram o seu nome. Ela foi para o palco com uma garota ruiva e um rapaz que mais parecia um alfinete. Os primeiros acordes do hip-hop preferido de Maria tocaram nas caixas de som e em seu coração.

Não havia jurados, não havia concorrentes, não havia plateia ensurdecedora. Apenas Maria, a música e seus movimentos fluidos e precisos. A magia tinha acontecido. A música preenchera seu cérebro completamente e lá, não havia espaço para mais nada. Nenhuma preocupação. Nenhum medo. Nenhuma confusão. Nenhum pensamento. Devo admitir que ela mandou bem, mas não fiquem empolgados. A competição só está começando.

— Garota, você dança muito bem! — Um rapaz baixinho de olhos puxadinhos e cabelos pretos, espetados para cima à base de muito gel, cumprimentou Maria no camarim.

— Obrigada!

Seu rosto, mais parecido com um pimentão, poderia ser explicado pelo calor de ter acabado de dançar e passar pela primeira fase. Mas vou lhe dizer a verdade: Maria sempre enrubescia sob elogios e seu sorriso encabulado queria dizer “obrigada, gatinho”. Ah, a música, a dança e os hormônios estavam em polvorosa.

Depois, vieram o funk, no qual Maria se saiu bem. O axé, no qual ela mandou super bem. O rock, hum... mais ou menos e no samba, quase fora eliminada. A disputa estava ficando cada vez mais acirrada e a nossa garota começou a temer pelo próximo ritmo. Tinha poucos concorrentes agora: uma loira de nariz em pé, uma negra de sorriso brilhante, a morena estonteante, Maria e um rapaz, o único sobrevivente da raça masculina.

Eles anunciaram que o próximo ritmo deixaria apenas três finalistas. Maria imaginou que o ritmo seria bastante difícil para ajudar os jurados na eliminação dos candidatos. E ela tinha razão.

— O próximo ritmo será… o frevo! — Anunciou o organizador do evento com um meneio de mão e um sorriso... perverso? Será que foi isso mesmo que eu vi. É, parece que sim.

Rogério olhou para Maria assustado. Eles ainda não tinham treinado este estilo de dança. Era possível ver o medo nele, de que dessa vez, ela seria eliminada tão perto do grande prêmio. Maria suspirou e entrou no palco junto com os outros competidores. E… roubou a cena. Maria era pernambucana e sua maior alegria na infância era dançar frevo atrás do Galo da madrugada. A plateia foi à loucura com a demonstração do autêntico frevo pernambucano.

Ufa! Essa foi por pouco! Maria foi uma das finalistas junto com a morena estonteante e a loira anti infecção. O coração de Maria batia descontrolado e ela passou a suar frio. O pessoal da comunidade gritava seu nome. Ela quase não ouviu o anúncio do organizador, prestou atenção apenas quando o nome do seu professor foi exaltado por sua qualificação e conquistas de prêmios em outros concursos de dança.

Devo lhe dizer que Maria não sabia de tudo isso. Havia pouco tempo que ela começara a frequentar a Escola de Dança Flor de Mandacaru e estava tendo aulas com Rogério, o professor gato, há apenas dois meses. Então, vocês devem imaginar o quanto ela estava chocada, perplexa e envergonhada por não ter pesquisado mais sobre o seu tutor. Ela sentia-se arrependida desse lapso, principalmente porque o organizador anunciou que ele seria o par das finalistas no último ritmo, a lambada.

É, eu sei, eu também lembrei da “química” mais cedo. Vocês não? Porque Maria não conseguia pensar em outra coisa, em como e em se, conseguiria terminar aquele concurso agora. Ela também não tivera aulas de lambada na Escola. Apenas dançara para se divertir em bailes nordestinos que fora com sua mãe, mas nada parecido com o que era exigido em concursos de dança. É, Maria estava se sentindo como um camarão em uma frigideira quente.

A loira “não me toques” subiu ao palco e fez sua apresentação. O estômago da Maria estava virando pelo avesso, mas ela conseguiu perceber vários erros, o que lhe deu uma pequena esperança. Os aplausos foram contidos e a loira se sentou do meu lado com a cara amarrada.

Chamaram a morena deslumbrante e Maria teve a impressão de que uma gata persa subiu ao palco. Ela se enroscara em Rogério com movimentos tão sensuais que quase causaram um mini enfarto em nossa pobre coitada. Não vou falar muito da dança deles, só que deixou Maria com uma sensação de fracasso antecipado, arrancou aplausos entusiasmados da plateia e fez a megera, nas palavras de Maria, se sentar com um sorriso triunfante.

Maria subiu ao palco como um condenado encaminhando-se para a forca.

— Você está bem, Maria? — Rogério deve ter percebido a aflição no rosto de sua pupila. — Não se preocupe. Lembre-se do que eu lhe disse: sinta a música, dance com o coração e, deixe que eu lhe conduza. — Segurou uma de suas mãos e pousou a outra um pouco abaixo de sua cintura.

A música começou e a mágica mais uma vez aconteceu. Maria sabia o básico da lambada, mas seu professor era um excelente condutor e ela, uma ótima aluna. Tinha a música em suas veias e ritmo era seu segundo nome. Os pensamentos se foram e só ficou o balanço dos quadris, o movimento de pernas e braços em total sintonia com a música e a forma como Rogério a conduzia. Ele terminou a dança com o clássico movimento de jogá-la para trás e completou a encenação com um selinho.

O silêncio expectante e opressor reinou ao fim da música. Será que a dança fora boa? Será que Maria fizera o suficiente para ganhar o concurso? Ela olhava seu professor, apreensiva, enquanto o sorriso dele aflorava junto com o barulho ensurdecedor de aplausos, assovios e gritos. A plateia foi à loucura e o coração de Maria abrandou. Ela conseguira. Sim, posso lhes dizer que ela se superou. Fora a dança mais bonita de Maria naquele evento. Ela voltou para junto de suas concorrentes, que olhavam desagradavelmente para direções opostas.

Os momentos de tensão, que antecederam o anúncio da ganhadora pareceram breves para Maria, que só conseguia pensar no selinho que recebera de Rogério. Entretanto, o momento chegara e as três finalistas foram chamadas ao centro do palco. Alguns aguardavam em expectativo silêncio, outros gritavam o nome de Maria. Ela podia identificar algumas pessoas da comunidade torcendo e fazendo barulho como se ali fosse a final da copa do mundo.

— E o prêmio do nono concurso de dança deste ano vai para... Amanda Gouveia.

É... É isso mesmo que vocês ouviram. O prêmio não foi para Maria. Que tragédia!

A loira sem sal aproximou-se, em sua leveza flutuante, do organizador para receber uma réplica enorme do cheque do prêmio. Seu sorriso falso e superior se voltou para Maria e a morena que a olhavam perplexas. A quadra de esportes explodiu em vaias e palavrões. O clima esquentou e Maria ficou se perguntando como chegara ao camarim.

Rogério a esperava com um sorriso encabulado, um misto de desculpas, encorajamento e chateação. Ele abraçou Maria e isso era tudo o que ela precisava no momento. Seu coração tinha sonhado com aquele prêmio, com as contas pagas, uma alimentação melhor. Ela se esforçara. Ela sentira a vitória na reação das pessoas lá fora. Ela não entendia.

— Maria. — Ele tocou seu queixo e fez ela olhar para ele. — Como você está?

— Não estou muito bem. — Ela levou as costas da mão aos olhos e enxugou uma lágrima. — Eu imaginei que tinha chances de ganhar.

Ele segurou a sua mão. Faíscas elétricas foram diretas para o coração de Maria dando-lhe uma nova injeção de ânimo. Hum, ao que parece ela não tinha interpretado errado os sinais.

— Eu sei. Você teria ganhado se Amanda não estivesse concorrendo.

O quê? Isso pareceu algo estranho de dizer e de se ouvir. Principalmente porque a loira tingida não dançara bem o concurso inteiro. O que estava acontecendo?

— O que você quer dizer, Rogério? — Maria soltou a mão que ele segurava e deu um passo para trás.

— Ela é sobrinha de um deputado que está custeando a recandidatura do prefeito e, este patrocinou o concurso. — Ele pegou novamente a sua mão e sorriu encantadoramente. — Posso te levar para sair? Comer uma pizza e, quem sabe, esquecemos tudo isso aqui.

O pesadelo se transformara em sonho? Todavia, algo ainda incomodava Maria.

— Rogério, você sabia disso? De que Amanda ganharia?

Ele suspirou e desviou os olhos para onde a loira estava. Aquilo pareceu um sim para mim. E para vocês? Com certeza era um sim para Maria.

— Estamos no Brasil, Maria. — Ele deu de ombros e tentou segurar as mãos dela novamente.

Ela ainda insistiu:

— Rogério, você concorda com isso?

As mãos na cintura, o pé batendo no chão freneticamente e o tom de voz firme fizeram com que o professor olhasse para ela e com um suspiro resignado ele respondeu:

— Coisas assim acontecem todos os dias, Maria, — Disse-lhe Rogério num tom de súplica torcendo para que ela entendesse e aceitasse. — Não há o que se fazer. Você dançou bem, mas onde Amanda dança, as outras candidatas dançam, são cartas fora do baralho. Não há o que fazer.

Será que aquela campanha do balde de água gelada na cabeça ainda estava valendo? Valia sem água gelada? Apenas com palavras resignadas que causavam decepção?

— Então, ainda podemos sair hoje, Maria?

Sério que ele perguntara isso? Maria olhou bem o seu príncipe que acabara de virar sapo e disse antes de se virar e ir embora. — Acho que não!

A coisa que Maria mais queria era sair dali. E com razão. Esquecer aquele pesadelo, se aconchegar nos braços de sua mãe e chorar. Saiu sorrateiramente da Quadra de Esportes e foi em direção à outra rua para ligar para D. Lourdes e avisar onde estava. Só que suas intenções foram barradas por um homem e uma mulher de meia idade.

— Maria. Somos da Academia de Dança Cia da Terra. Temos um dos melhores cursos de dança. Vimos suas apresentações, gostamos muito do que vimos e queremos lhe fazer uma proposta.

É, eu esqueci de lhes contar não foi? Tinha olheiros no concurso! E, parece que agora sim, o pesadelo de Maria poderia se transformar em sonho.

Um grande sonho que iria virar realidade.


Carmo Bonfim

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