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“Ex Machina: Instinto Artificial”: a tecnologia do controle social

Atualizado: 1 de Mai de 2020


Poster do filme Ex Machina

No filme “Ex Machina” o programador de 26 anos chamado Caleb (Domhnall Gleeson), um funcionário da Blue Book ─ semelhante ao que seria o Google na vida real ─ ganha um sorteio e tem a chance de passar uma semana na misteriosa e isolada mansão do fundador e diretor executivo da poderosa empresa de tecnologia, Nathan (Oscar Isaac). Ao chegar no lugar, ele descobre que seu chefe está criando algo muito maior que a plataforma responsável por toda a sua fama e riqueza: uma inteligência artificial super avançada e sofisticada, nomeada Ava, que deverá ser testada através de algo muito parecido com o teste de Turing.

É possível pensar a Inteligência Artificial (IA) como a reprodução e representação de todos os comportamentos que o cérebro humano controla e coordena. Na década de 1950, o teste de Turing foi criado por Alan Turing e tinha o objetivo de analisar a capacidade de uma máquina em exibir comportamento inteligente correspondente ao de um ser humano comum. Na história, esse experimento deveria ser utilizado como ferramenta para observar e avaliar a humanoide desenvolvida por Nathan, durante os sete dias em que Caleb iria auxiliar seu chefe, através de avaliações feitas por etapas.

Dentre as questões decorrentes dos recentes avanços, a liberdade e a independência dos modelos inteligentes caracteriza-se como uma das mais importantes, porém complexa, em virtude da sua própria origem. Além disso, se torna cada vez mais comum que ocorra uma ambivalência com relação ao real e ao artificial. Nesse caso, fica a dúvida sobre até que ponto a tecnologia pode influenciar e determinar a vida de toda a sociedade, pois a substituição das tarefas humanas por dispositivos e ferramentas presentes nos computadores e o uso de máquinas especializadas é cada vez mais regular. Esse cenário vai de encontro à uma citação do físico Robert Oppenheimer, responsável pela criação da primeira bomba atômica no decorrer da Segunda Guerra Mundial: “Eu me tornei a morte, a destruidora de mundos”. Assim, ele entendeu que havia feito algo com dimensões extremamente devastadoras.

Além disso, a grande utilização de algoritmos direcionados e capazes de monitorar as ações de cada indivíduo na internet, transforma uma aparente praticidade, em um despejo de anúncios de diversos produtos relacionados ao que cada pessoa acabou de pesquisar. O controle por parte dessas grandes redes leva à uma falta de autonomia de cada indivíduo, pois o uso das novas tecnologias acaba criando uma política de consumo exacerbado e descontrolado, que transforma a sociedade em algo automático. Esse tipo de domínio é indicado, no filme em questão, no momento em que o programador entrega espontaneamente diversas informações sobre si mesmo para um sistema de redes e a androide utiliza isso, a fim de preservar sua própria existência, simulando comportamentos e sentimentos característicos dos seres humanos a seu favor. Nesse contexto, ela parecia ter genuinamente algo correspondente a consciência humana, além de demonstrar que possuía o instinto de sobrevivência também presente nos seres humanos.

Muitas pessoas acreditam que o desenvolvimento da IA pode ajudar a solucionar vários problemas constantes da humanidade, trazendo benefícios, pois revela uma praticidade maior. Já outros, entretanto, preferem a prudência em relação ao desenvolvimento dessa tecnologia. “Ex Machina: Instinto Artificial” expressa uma versão mais próxima do que seria a relação dos seres humanos com essas criações e, no seu limite, quais seriam os possíveis rumos e consequências que essa vinculação poderia ocasionar.

Outro assunto imensamente relevante diz respeito a visão do corpo feminino como algo normatizado socialmente, pois Ava tem o padrão de beleza esbelto, que é considerado e idealizado como o correto em tempos atuais. Esse fato faz referência à indústria que busca objetificar as mulheres a todo custo, de maneira que satisfaçam o prazer e o ego masculino. A androide é controlada de todas as formas por seu mestre, e isso equivale ao machismo, que tenta coagir e impor maneiras de viver para as mulheres durante várias épocas e permanece até os dias de hoje, em muitos casos.

O longa-metragem está nas discussões éticas e morais, pois envolve uma responsabilidade social. Diante disso, o ponto principal se reflete no fato de que a cada novo passo, somos expostos aos avanços e, ao mesmo tempo, o fato de projetar algo tão parecido com a própria raça, pode definir um destino cheio de incertezas, pois a sociedade se encontra coberta de retalhos e fatos completamente egocêntricos, que podem desencadear algo diferente do esperado. Nesse sentido, o cuidado é algo que pode fazer com que o ser humano consiga avançar mais do que a máquina ou permanecer com a mesma indiferença, pois todas as atitudes e decisões resultam em implicações para a própria humanidade.


Por Andyara Lima

Referências

Inteligência artificial: questões éticas a serem enfrentadas.

https://dorakaufman.blog/wp-content/uploads/2018/05/INTELIGENCIA-ARTIFICIAL-QUESTOES-ETICAS-A-SEREM-ENFRENTADAS.pdf

Considerações iniciais sobre inteligência artificial, ética e autonomia pessoal.

https://periodicos.unifor.br/rpen/article/view/8257

Máquinas e sociedade: uma abordagem ética acerca do artificial.

https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/NathaliaPantaleao(25-33).pdf

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