Liberdade, ainda que doentia



“Amanhã é o fim da quarentena”, anunciou a voz no noticiário da TV, pouco antes de ser silenciada pelo controle remoto. A notícia era boa, entretanto, ninguém estava interessado em ouvi-la. Há mais de quarenta dias que o jantar acontecia sem o som das desconhecidas vozes televisivas. Havia em nós uma espécie de consenso silencioso de que as realidades fragmentadas que chegavam pelos meios de comunicação não se encaixavam mais no enorme quebra-cabeça que enfrentamos durante a pandemia. Nem mesmo a novela despertava interesse. O que era, afinal, a ficção, perto de toda aquela realidade terrível? Não havia como competir. Qualquer dramaturgia, perto do teatro de horrores que vivemos, parecia brincadeira. Parecia uma inversão, como se, de repente, alguém tornasse a ficção mais absurda em realidade, e a antiga realidade, uma ficção inatingível. Não sei dizer quando aconteceu exatamente, mas a quarentena trouxe o fim da ficção para todos nós, e um novo mundo começou a surgir naquela casa. Um mundo que, antes, só existia nos filmes de famílias perfeitas e nas novelas de horário nobre. De repente, começamos a comer ao som dos talheres batendo contra a louça e das histórias repetidas de mamãe. Papai conseguiu elaborar assuntos além de dinheiro e trabalho. Aprendemos a ouvir nossas vozes novamente, a degustar cada palavra com prazer e, vez ou outra, engolir algumas diferenças. Depois de meses sem recebermos nenhum convidado à mesa, conseguimos nos tornar importantes uns para os outros. E a comida? Nunca comemos tão bem. Nunca mais tivemos problemas digestivos. E, além disso, o sabor das refeições foi ficando cada dia melhor. Foram meses sem fastfood e sem cozinheira, mas, inexplicavelmente, o gosto foi melhorando à medida que a infecção avançava e o desabastecimento piorava. Hoje, por exemplo, o feijão da vovó estava divino. Todo mundo elogiou. Não sei se é por que era o último pacote de feijão do mercado, ou se é pelo motivo de sabermos que, a qualquer momento, nós nunca mais poderemos comer o feijão da vovó novamente. Apenas sei que está inexplicavelmente maravilhoso. Pensando bem, talvez esses jantares nos tornaram pessoas melhores. “A gente é o que come”,vovó sempre diz. Certamente nos tornamos novas pessoas quando começamos a jantar juntos todos os dias, sem discutir nem engolir ficções e ilusões.

“Amanhã acaba a quarentena”, anunciou o televisor do vizinho, sempre tão alto. A notícia recebida involuntariamente deixou todos tensos. A quarentena fez tantas coisas mudarem que hoje a antiga liberdade parecia uma prisão. Mesmo apreensivos, jantamos bem e logo começamos a lavar a louça. O trabalho doméstico, que antes era só da Cleide, tornou-se o trabalho de todos nós. Não fazíamos em uma semana o que a Cleide fazia tão bem todos os dias. Mesmo sendo árduo, havia deleite em fazer tarefas em grupo, todos em comunhão com o mesmo fim, como uma família de verdade. As roupas nunca mais ficaram tão brancas quanto antes, mas finalmente lavamos toda a roupa suja entre nós. Hoje vestimos um coração limpo, sem ressentimentos nem empecilhos que nos impeçam de funcionar como uma família. A casa nunca mais ficou tão organizada, mas esta nova ordem familiar é bem mais aconchegante. E a interminável louça nunca mais se acumulou na pia, tão logo se esvaziava na mesa já era encaminhada para a lavagem, passando por várias mãos, de geração para geração, recebida, separada, lavada, tudo feito com muita cumplicidade. Todo esse trabalho se tornou prazeroso! É divertido estarmos juntos. De alguma forma, aprendemos a ser felizes sem remédios, desenvolvendo uma enorme química entre nós.

Depois dos afazeres, fomos para a varanda. Tomamos nossos lugares nas cadeiras decorativas que nunca havíamos usado. “Amanhã acaba a quarentena”, anunciou um carro de som que andava pela rua. Novamente ficamos nervosos, cada um pensando em seu fardo rotineiro. Que liberdade estranha nós tínhamos antes. Tão estranha que, só de pensar nela, nos sentíamos presos. O escritório, a faculdade, a multinacional, a terceira idade do clube, a sociedade, o mundo. O trânsito, as contas, as obrigações. Melancolias, mercadorias, os sapos a engolir. A tal liberdade tinha faces tão medíocres! Para disfarçar o desespero coletivo, papai nos convidou a admirar o céu. Ele disse que sempre quis ser astronauta. Engraçado, eu também. Não sei em que curva da vida colocamos os pés no chão e esquecemos de nossos sonhos. Só sei que foi na curva de contágio, disparada para cima, que reaprendemos a sonhar. Paramos de olhar para frente, com os antolhos do mundo nos olhos, e começamos a olhar para o céu todas as noites. Naquela noite não foi diferente, começamos a falar dos astronautas que seríamos, da imensidão que nos fazia tão pequenos. Quando a observação começava, mamãe logo aparecia com a enciclopédia da época em que estudava. Iniciava, então, uma jornada interminável de tentar achar explicações nos livros sobre tudo aquilo que os olhos experimentavam no céu. Impossível. Curioso, quando andávamos com o mundo na palma das mãos, com verdades e conhecimentos brotando da tela de um celular, parecíamos tão grandes, tão sábios. Com um aplicativo astronômico, eu pensava que sabia tanto sobre estrelas. Hoje, só sei que nada sei. Desarmada de tecnologia, comecei a me sentir mais verdadeira.Com o passar das horas, aos poucos, o entusiasmo com o céu ia cessando. Sem o peso do stress, aprendemos a dormir sem remédios, e o sono aparecia naturalmente, relaxando nossos corpos.

“São dez horas. Amanhã acaba a quarentena”, anunciou o rádio relógio de vovó quando ela preparou o despertador para o dia seguinte. É desanimador pensar que, em poucas horas, eu estarei presa novamente em minha liberdade anterior. Quando a hora de dormir chegou, nos despedimos com um grande abraço. Tristes, sabíamos, no fundo, que a liberdade que enfim chegou será mais mortal que o confinamento. Ela irá matar aos poucos toda a essência e sabedoria que conquistamos. Irá adoecer severamente a nossa vida familiar, contaminará nossas relações e nos isolará. Irá nos confinar novamente àquela versão reificada e medíocre de nós mesmos. Sufocará nossos sonhos em nome da rotina, do mercado, do dinheiro. “É o fim da quarentena, vencemos a doença! ”, comemorou o rádio relógio. Nós, porém, não comemoramos. Apenas suspiramos e nos dirigimos a nossos aposentos. Vencemos a terrível doença. E amanhã voltaremos a ser livres… para adoecer novamente.


Amélia Greier

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