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Meu nome é Marcos, porém, não quero falar sobre mim. A história que quero lhes contar é do meu irmão e melhor amigo, o João. Sua vida mudou muito depois daquele maldito jogo da Mega-Sena. Ele é pedreiro por profissão, assim como eu, milionário por sorte. E que baita sorte. João ganhou 150 milhões sozinho. Bem, tecnicamente sozinho. Eu seria o padrinho de casamento dele, entretanto, a situação ficou feia. Às vezes o dinheiro traz mais problemas do que felicidade.

Senti o cheiro inebriante das flores antes mesmo de chegar à Catedral de Nossa Senhora do Carmo. A escadaria estava toda enfeitada com pequenas flores rosas. As flores brancas e amarelas do interior eram destacadas pelo tapete vermelho. As luzes douravam as paredes. Senti-me transportado para um mundo diferente. Um mundo de paz, felicidade e amor. João, por causa de nossa mãe era devoto de Nossa Senhora do Carmo. Os convidados, muito bem vestidos, estavam chegando e lotando a igreja.

Somos nordestinos. Em nossa região, a seca castiga homens, animais e o pouco que plantamos. O único jeito de colocar o que comer na mesa de uma família de muitos filhos é tentar a sorte na cidade grande. Como filhos mais velhos, eu e João saímos de nossa terra e viemos para São Paulo. Acostumados ao trabalho duro, de sol a sol, logo arrumamos serviço, mesmo não tendo muita instrução. Não tínhamos muito tempo para os estudos. Ajudávamos nosso pai a sustentar nossos outros oito irmãos. Aqui, o que arrumávamos, mandávamos uma parte para nossa família e com o resto, íamos nos virando.

Estávamos felizes. A cidade grande tem muitas opções para quem sempre viu pouco. Divertíamo-nos vendo a diversidade de pessoas, suas roupas, jeitos de falar e de agir. Como agora. A catedral está cheia de gente bonita, sofisticada, grã-fina. Um prato cheio para meus olhos deslumbrados. João está nervoso. Posso sentir a tensão exalando do seu terno caro. Tenho certeza de que ele não presta a mínima atenção aos presentes que desfilam procurando os poucos lugares para sentar.

Nos momentos de folga, João e eu, íamos a feiras nordestinas e bailes de forró. Nada contra música eletrônica, samba, rock ou MPB. Nós gostamos mesmo é de Luís Gonzaga, Gonzaguinha, Trio Nordestino. Foi em um desses bailes que meu irmão conheceu a Andressa. Corpo bonito, jeito faceiro, riso fácil. Ele se encantou. Em pouco tempo estavam morando juntos.

— Marcos, vamos na 25 de março. Quero comprar uma coisa para a Andressa. — Seu tom alegre e misterioso me deixou com uma pulga atrás da orelha.

— O que você quer comprar para ela? Estamos meio duros este mês, não? — Argumentei, me lembrando que tivemos pouco serviço nos últimos dias. — Ainda temos que mandar um para nossos pais. — João ainda fazia questão de ajudar nossa família, mesmo já morando com a Andressa.

— Uma aliança! — Seus olhos brilhavam de contentamento — Vou pedir Dressa em casamento.

Mesmo surpreso, devido a rapidez de como aquele relacionamento andava, fiquei feliz por meu irmão. Taí uma pessoa que merece ser feliz. O João. Merece ser muito feliz. Ele é gente muito boa.

— Mais antes quero passar na Lotérica. — João tirava a carteira do bolso e começava a contar seu esmirrado dinheiro.

— Tu ainda tens esperanças de ganhar alguma coisa? — Falei descrente. Desde que chegamos a São Paulo, se sobrava algum, tentávamos a sorte na Mega-Sena.

— Tá acumulada Marcos! Tá acumulada! Quem sabe não é desta vez.

E foi. Foi dessa vez que João ficou milionário.

Após fazermos o maldito jogo que arrebentou com as nossas vidas, fomos comprar as alianças para João pedir Andressa em casamento. Fomos comemorar o noivado comendo cachorro quente. Eles faziam mil e um planos. Sonhavam onde e quando seria o casamento, se eles tivessem dinheiro. Eu estava feliz por eles. Eles eram felizes. Voltamos a pé para casa. O dinheiro tinha sido todo empregado nas alianças. João queria dar o melhor para a Andressa. Pelo menos o melhor até onde ele podia.

A marcha nupcial começou a tocar e a visão da Andressa entrando na igreja me tirou dos meus devaneios. O vestido era tão... tão... tão suntuoso que eu nem consegui ver o pai dela. Pudera. aquele vestido deve ter custado uma nota. Eu podia ver, mesmo estando escondido pelas sombras na entrada, que tudo dentro daquela igreja exalava riqueza. Boa parte vinda do bolso de meu irmão. Coitado. Se ela me ouvisse dizendo isso, diria que ainda penso como um pobretão. Mas o que eu posso fazer? Eu ainda era um pobretão! O milionário era o meu irmão.

Quando o resultado da Mega-Sena saiu e descobrimos que João tinha ganhado sozinho 150 milhões, ficamos mega alegres. Porém, sem nenhuma noção do que era ter tanto dinheiro. Nem de que ele nos traria tantos problemas. Sempre fomos muito pobretões, pensávamos como pobretões, agíamos como pobretões, não sabíamos ser de outra forma. Mesmo João estando podre de rico. Ele sempre foi muito pé no chão. Sensato demais. Ele ajudou nossa família no Nordeste e várias ONGs de nem sei o quê. Ajudar os necessitados, era o seu lema, pois nós sabíamos o que era passar necessidade. Passamos a nos divertir mais, mas foi só. Ele ainda continuou a trabalhar de pedreiro. Dizia que era o que sabia fazer, que não sabia ser milionário. E foi aí que as brigas começaram.

Os flashes das câmeras profissionais que não paravam de pipocar, a fim de eternizar aquele lindo momento entre um belo casal rico, faziam as lembranças virem à minha mente com a mesma intensidade e rapidez. No início, tudo foram flores, bombons refinados, comidas estranhas, perfumes estrangeiros, passeios, joias, academia, plásticas, roupas caras, sapatos brilhantes, bolsas que não cabiam nada dentro, mas esvaziavam os bolsos do meu irmão. Tudo para satisfazer os caprichos da Andressa. E como ela tinha caprichos! Eram tantos que eu não sabia nem onde, nem como ela inventava tantos. Tudo era pra ela. Nada para o João.

— João, não vai comprar nada pra tu não, irmão? Agora tu é rico. Agora tu pode. — Eu dizia-lhe.

— Não! —João disse-me franzindo a testa. — Por que Marcos? Você quer alguma coisa? — Ele já segurava a carteira para me dar algum dinheiro.

— Não. — Balancei a mão em sinal de quem afasta a ideia. — Por enquanto, eu tô de boa. Semana passada tu comprou tanta roupa pra mim que nem cabe no meu guarda roupa. — Estava meio sem jeito, mas sem pensar, acabei dizendo o que começou nosso estranhamento — É porque tu faz todos os gostos da Andressa e ela nem se lembra de comprar uma cueca pra tu. Ela vai sugar todo o teu dinheiro.

— O que é isso Marcos? — Sua voz saiu mais alta e grosseira do que deveria, era apenas uma conversa normal entre irmãos. Não era? — Tu achas que eu não vou satisfazer as vontades da Dressa? Ela é a mulher que eu amo. Tudo o que ela me pedir eu vou dar. E ela já me deu cuecas sim. Sou feliz dando a ela o que ela quer. E dinheiro não foi feito pra gastar? Então vamos gastar.

E foi gasto que não foi brincadeira. Andressa estava determinada a sugar cada centavo do João e cada vez que eu tentava alertá-lo a briga era cada vez mais feia. Um dia, ele veio me contar umas coisas estranhas que a amada dele estava pedindo. Ela queria que ele fosse a um clube da alta sociedade, que ela passara a frequentar, e comprasse alguns amigos.

— O quê? — Estava chocado — E agora se compra amigos? São o quê? Um tipo de bonecos que ela dá o nome de amigos?

— Não seu mané! — João não conseguia me olhar nos olhos. — Ela disse que tenho que pagar umas bebidas para uns caras lá. Fazer novos amigos. Que eu estou rico e que agora, só tenho que andar em locais onde só tem ricos.

— Ela não quer que você ande mais comigo, João? — Eu estava incrédulo com a audácia daquela garota.

— Não, não é isso Marcos. — Mas pelo semblante do meu irmão, eu sabia que era.

— Ela vai acabar com o teu dinheiro, cara. — Tentei trazê-lo a razão, mas João era um homem bom e apaixonado.

— Eu investi algum. Não tem como ela me deixar liso. — João se justificou.

— Mas ela só vai cansar quando te deixar na lama. — E triste completei — E sem família. — Os sonhos para um casamento chique e uma noiva mega satisfeita, iriam prevalecer.

No altar, os noivos estavam ajoelhados ouvindo o padre e as bênçãos divinas. Os convidados estavam alegres. Meu coração pesava. Soube que depois ia ter uma recepção com um pessoal seleto. Música, champagne... Tudo do bom e do melhor. Eu não tinha recebido nenhum convite. Também, já esperava por isso. Os noivos se levantaram. Era o momento do sim. De selar a união. A voz do padre ressoou na catedral agora silenciosa.

— Andressa Rodrigues, você aceita João Felipe Albuquerque, como seu legítimo esposo?

Olhei sobressaltado para o altar. O que ouvi e vi me deixaram com o sangue fervilhando. Agora, de lado para os presentes e de frente para o noivo, pude ver uma barriga saliente que o vestido de noiva não conseguiu esconder totalmente.

— O quê? — Explodi de raiva sem nem conseguir ouvir o sim, ou o não, da noiva. — Aquela vaca teve a coragem de casar prenha e de um cara, que ainda por cima, tem o nome igual ao teu, João?

Meu irmão, que estava ao meu lado de cabeça baixa para me esconder o que estava sentindo, sussurrou:

— Foi.

Uma única palavra. Dita com voz embargada. Foi o aviso. Era melhor não espezinhar ainda mais sobre o sofrimento dele. Resolvi ficar calado. Já bastava ele ter vindo ver aquela cena deplorável. Aquela vagabunda casando-se com outro. Na data que escolheram. Na igreja que escolheram. Era muita cara de pau daquela ordinária.

— É para ver se enterra de vez o que eu sinto por ela. — João me disse quando me pediu para acompanhá-lo até ali.

Ele ainda me pediu perdão por tudo o que ele me fizera passar nesses últimos meses. Contou que a Andressa o tinha abandonado por um cara que ela conhecera naquele tal clube de gente rica, pouco depois de ela ter feito a gente cortar relações. Um cara rico, que gostava de ser rico e que esbanjava riqueza. João ficou sabendo de tudo depois que chegou uma correspondência à sua porta. Ela, apesar de já ter gastado boa parte do seu dinheiro, ainda queria a metade do que meu irmão ganhara na Mega-Sena. Pela constância da união estável, dizia ela. E olha que não tinha nada de estável na união deles depois daquele dinheiro maldito.

Ainda nas sombras na entrada da igreja onde estávamos, reuni coragem e perguntei:

— Aquele filho é teu?

João balançou a cabeça em negativa. Além de tudo, ela tivera coragem de o trair? Puto da vida, vi meu irmão passar pela porta. De relance, notei um volume estranho por baixo de seu paletó. Achei melhor deixar minha indignação de lado e ir atrás dele. Ele podia ainda a amar, mas não deixaria que ele desgraçasse ainda mais a sua vida. O dinheiro nos trouxe sofrimento, mas mostrou a verdadeira face da Andressa. Ele iria curar as feridas. Eu o ajudaria nisso. Uma lição que nosso pai sempre nos ensinou foi: a família vem em primeiro lugar. Iria lembrá-lo disso.


Carmo Bonfim

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