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Prenúncios de pandemia



Soltar os demônios! De todas as tentações que nos rondam, acho que esse é o desejo mais insistente em tempos de pandemia. Talvez seja por isso que o uso de ansiolíticos tenha crescido tanto.

Segundo uma pesquisa da Associação Americana de Psiquiatria realizada em março de 2020, o uso de medicamentos contra a ansiedade cresceu 34% nos Estados Unidos, considerando que lá, nos últimos cinco anos, o consumo das benzodiazepinas havia caído 12,1%.

O estudo ainda aponta que as prescrições são bem maiores para as mulheres do que para os homens. Nem precisa explicar o porquê. Nós, mulheres, conhecemos bem esse desejo que bate de repente de soltar demônios, cachorros, onças, serpentes. Não importa o bicho, desde que ele expresse nossa ferocidade.

Haja Rivotril para tentar manter algum grau de civilidade quando estamos à beira de um ataque de nervos. Afinal, motivos não faltam, e eles são de toda forma, ordem, tamanho e natureza. Não à toa, Caos foi a primeira divindade a surgir no universo. Péssimo prenúncio!

O problema é que para soltar os cachorros a gente precisa primeiro soltar o verbo. Mas, em tempos de home office é preciso esperar todo mundo terminar o expediente para que a sessão de despejo não seja transmitida ao vivo, em banda larga, para a professora da sua filha, para o comitê gestor da empresa do marido, para a live do filho, para o grupo de oração da terceira da idade da sua mãe.

Só então, depois que o último abençoado da casa desligar o maldito computador, você pode lavar a roupa suja. Mas aí sua energia já foi para o ralo. Já que você passou o dia todo, feito louca, passando álcool em gel 70% nas compras e na casa inteira, lysoform nos sapatos, água sanitária na cozinha e no banheiro, lavando, passando, cozinhando...trabalho hercúleo! Sem falar na desordem que impera nesse Olimpo onde Caos é soberano.

Pelo visto, Gaia descambou de vez e me arrastou com ela. Se fosse a Medusa, já não haveria mais pedra sobre pedra, bastaria começar a frase com um: Cadê? Você viu? Onde está? Para ser petrificado.

Outro dia meu marido foi procurar os recibos para fazer o imposto de renda. Meia hora depois, estávamos os dois no labirinto do Minotauro, sem o fio de Ariadne, socorro!

O jeito foi saudar Dionísio e abrir uma garrafa de vinho para brindar a vida, pois na caixa de Pandora que trago trancada dentro de mim, ainda brilham muitas esperanças.


Walkiria Rigolon

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