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Era um fim de tarde lindo. Um dia alegre, dia de passear com papai. A brisa do mar, suave, emaranhava seus curtos cabelos. As pernas do pai bambeavam entre as gigantes rochas litorâneas e ela, medrosa, agarrava as madeixas louras dele com mais força. Morria de medo daquelas pedras. “Vou te jogar no mar”, sempre brincava o pai, agarrando suas perninhas e lhe arrancando gritinhos mesclados de risos de tensão. A cada ameaça, ela encarava seu medo rochoso de longe. Medo, rocha impenetrável, sentimento tão pesado que já começa com uma sílaba tônica; pavor geográfico que acidenta até mesmo o deleite de estar com o pai. “Papai só está brincando”, repetia o coraçãozinho aflito para os olhos cerrados. Naquele dia, porém, ele não estava. Um homem de ouro, cabelos loiros, pele dourada de sol. Amarelou de tudo. Um coração mole, em vida dura, tanto bate até que fura. Em uma despedida silenciosa, ele jogou tudo para o ar. As mãozinhas se agarraram aos cabelos dele com mais força. O corpinho franzino endureceu, esperando o forte impacto. Um homem de ouro, em uma rocha escura, o fim de toda uma caminhadura.

A queda lhe pareceu em câmera lenta. A cordilheira de medo cresceu até que o pavor lhe engoliu. Fechou os olhos para não ver o fim. De repente, o medo distante se tornou presente, todo aquele sentimento sólido se liquefez, virou água, e engoliu pai e filha sem piedade, em um último e tenebroso passeio que eles não fizeram juntos. Papai? Ela se agarrou no último fôlego de alegria daquele dia lindo. Papai! E perseguia bolhas de lembranças douradas que estouravam em um mar de sangue. Papaaai! Quando o medo chegou à garganta, gaseificou. Saiu na forma de um suspiro decepcionado. Era um fim de tarde lindo. Era um dia alegre. Era para ser ter sido bom.

Hoje, vinte anos depois, ela ainda não sabe como saiu do mar com vida naquele dia. Teve sorte? Talvez a sorte de um dia lindo. Uma alegria inesperada de um dia alegre, ou uma bondade derradeira de um dia bom. Ela também não sabe como sobreviveu. Ela só sabe que até hoje todos procuram por ela e pelo pai. Ela, porém, nunca se entregou: afinal, depois daquele dia, ela também nunca mais se encontrou.


Amélia Greier

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