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Volata



Um fato parecia certo. No dia 30 de março de 2021, José Natalino estava empregado.

O céu nem havia clareado e o homem engoliu o pão e o café com a pressa de um corredor querendo ganhar a sua primeira medalha.

Mal conseguiu amarrar os cadarços do tênis porque o relógio na parede avisava que seu ônibus passaria por ali a poucos minutos.

As ruas movimentadas e os bons ares, entusiasmavam o trabalhador que atravessava o olhar limpo e esperançoso pela janela do veículo.

Por volta das onze horas da manhã, enquanto em Nova York os artistas anunciavam a campanha verde, dessas que emocionam os fãs e até os céticos menos politizados, a multinacional onde José bateu o ponto naquele dia, alcançava uma meta modesta de produção. José, cismado, foi convencido do soerguimento.

Depois de se render ao orgulho pessoal, adiado por meses incontáveis, o homem de poucas palavras, só queria deixar o celular no bolso do uniforme para comemorar seu recomeço. José levantou-se e plantou-se em frente dos colegas. Trocaram otimismo. Há poucos meses nada disso existia em volta dele. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Só o silêncio e as incertezas de todo o mundo.

Em Brasília, o movimento pela democracia cantou a canção de liberdade sob uma chuva fina que umedecia os rostos dos brasileiros. Inquieta pela mudança histórica, a população, convalescente, selou compromisso com a verdade constitucional. As armas foram destruídas anunciando a queda das indústrias da morte e de seus consórcios publicitários, o ódio que havia se instalado nas ações políticas foi desintegrado, acompanhando, sobretudo, a desestruturação dos esquemas criminosos.

­ "Amigo, até parece que já vivo melhor".

"É possível, Zé, é possível."

Era tarde da noite quando a população se recolheu. O país estava seguro.

Em casa, José desligou a televisão. Pensou no filho. Lembrou-se da esposa falecida. Entrou no quarto. Recostou-se em uma velha cadeira de vime. Voltou a sonhar.

A canção que seria o presságio de um novo tempo, permaneceu no pensamento de José durante muitos anos e, embora não recordasse muito bem da letra, levava consigo a melodia aprendida.


Maria Rosa Coutinho