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EU, PEIXE



Esta noite fui tomado por um sonho esquisito. Eu era um peixe. Sim, um peixe. Mas eu sonhei com um peixe desesperado no fundo do mar, por mais paradoxal que isto pareça.

Sensação de asfixia, falta de direcionamento, coração saindo pela boca. Tudo era muito real. Eu sentia na pele, mesmo estando em outra pele. Até que em certo momento do sonho, quase à beira do falecimento, meu eu-peixe se deu conta de que estava em seu habitat natural. Aquele imenso e assustador oceano era minha casa, nadar fazia parte da minha existência. Por que então o desespero?

Eu só havia experimentado o tsunami na mente humana, não como animal. Embora eu seja um animal. Pensante. E pensando bem, nunca fui um peixe. Sou apenas um humano, errante, em escombros de mim mesmo, sonhando ser um peixe em pânico.

E meu eu-peixe nadava pensando. Na imensidão do oceano. Nos seres aquáticos. Nas alterações de temperatura. Nas tempestades. Na salinidade. Nas interferências do homem. Em possíveis rotas estratégicas de fuga. Meu eu-peixe não pensava em nadar, ele nadava pensando.

Foi quando então decidi exercer minha natureza. E a ordem natural das coisas não busca ordem em coisa alguma. Eu só precisava nadar. Praticar a arte de pensar sem pensar. Pensar com o corpo, com os músculos, com os sentidos. Respirar sem guerra e nadar. Simplesmente nadar. E nadando, eu despertei. No sonho. E do sonho.



Por Max Mendes