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Humano ou gato?




Lá fora a lua brilhava, sobre uma pequena cafeteria. Às ruas estavam vazias, vago por um miado ou dois, até mesmo uma cauda vista pelas sombras. E olhos cortados observavam dos becos, enquanto pela rua uma mulher andava. Seu salto era de agulha, uma calça de couro e uma camisa preta decotada. Tudo na mulher gritava problemas, dos seus cabelos ruivos à sua boca perversa. Mas seus olhos eram doces, como se tudo aquilo fosse somente uma barreira para as pessoas de fora. Ela andava insegura, como se temesse o que fosse acontecer, e ela estava certa em temer o que aconteceria. Afinal seu mundo inteiro mudaria, por simplesmente ter feito a coisa errada. Mas não existe uma ação sem uma reação, e talvez ela fosse merecida. A dona dos cabelos ruivos parou na frente de um café chamado Egito, hesitou antes de colocar sua mão na maçaneta em forma de gato. Como se temesse um grande monstro que tivesse do outro lado, e de certa forma temia. Pensou em dar meio volta, correr de volta para seu apartamento e esquecer tudo que tinha haver com aquela pessoa. Mas sabia que isso só pioraria a situação, traria mais dor e sofrimento. Por isso entrou no café, ao entrar logo fechou os olhos ao sentir o cheiro de café recém moído e de gatos. Mas logo ouviu a voz.


- Então, depois de uma semana você resolveu aparecer, Ayla?


Ayla abriu os olhos e logo os abaixou, amaldiçoando às malditas lentes que sua namorada usava. A mulher em sua frente era o que poderia ser chamada de fofa, tinha longos cabelos loiros e em sua cabeça tinha orelhas de gato brancas que ela sempre usava na loja. Seus olhos eram dourados e como de um gato, que Ayla acreditava ser devido às lentes. Suas unhas negras e pontudas clicaram no balcão de vidro, enquanto seus anéis em forma de gato brilhavam com a luz da lâmpada. Ayla se sentia intimidada, pela pequena mulher que parecia muito fofa com saia rodada cheia de babados roxos e o avental branco. E Ayla disse com olhos baixos.


- Me desculpe, Bastet. Eu precisava ir até a cidade vizinha, eu não pude evitar - Bastet saiu de trás da bancada, que tinha vários doces em forma de gato. Ela circulava Ayla da mesma forma que um gato-de-bengala circulava sua presa e falou.

- E por qual motivo você foi lá? Não me engane, Ayla, eu sei quando mente e quando vêm com meias mentiras - Ayla olhou para o lado, vendo que os gatos do aquário à observavam e isso a enervava. De tal forma que ela queria correr.

- Eu fui pegar algumas coisas, que eu precisava… - Bastet sorriu e seus dentes afiados faziam Ayla querer correr, e se perguntar como tinha se apaixonado por essa garota!?

- E quantas dessas coisas não eram suas? - O sangue sumiu das faces de Ayla, que apertava os dedos com forças. Se sentia uma criança na frente dos pais, depois de fazer uma travessura. Olhou nos olhos de Bastet, e soube que era inevitável mentir, por isso falou.

- Todas elas.


Um minuto de silêncio, era tudo que acontecia naquele momento. Ayla abaixava a cabeça envergonhada, Bastet observava tudo com muito cuidado e seu aproximou lentamente de sua presa ou melhor dizendo namorada. Pegou em suas mãos e às beijou, Ayla se surpreendeu e levantou a cabeça olhando para a linda mulher em sua frente. Tão pequena e fofa, que tinha feito seu mundo inteiro virar de cabeça para baixo. Olhou para aqueles lábios com batom cor de rosa que agora se aproximavam se do seus, mesmo que Bastet tivesse que ficar na ponta dos pés, Ayla se abaixou e seus lábios se tocaram. Um ronronar saiu dos lábios da mulher menor, que então se afastou do beijo e sussurrou.


- Você foi uma gatinha muito má, mas merece uma vida melhor e é isso que vou te dar.


Bastet sussurrava palavras que Ayla não entendia, a mulher ruiva se sentia perdida, olhou em volta e viu seu mundo nublar. E tudo começar a ficar menor e menor, até que se sentiu mole e amável. Fechou os olhos e sentiu mãos pegarem em sua pele, ou seria em seu pelo? Não sabia ao certo, voltou a abrir os olhos ao sentir o chão novamente. Olhou em volta e viu que estava do tamanho de um gato, olhou para o próprio corpo e viu que era de um gato. Ela era um gato! Tentou gritar, mas o que saiu foi um miado, os outros gatos pareciam rir dela. Foi então que sentiu uma mão em seu corpo e, contra sua vontade, começou a ronronar. Para então ouvir a voz de Bastet.


- Esse vai ser o seu novo lar, Ayla! Você não era uma humana muito boa, mas vai ser uma ótima gata-de-bengala, disso eu tenho certeza! Agora conheça seu irmão e suas irmãs


Bastet se virou e saiu do aquário de gato, enquanto um cliente entrava. Ayla queria chiar e se esconder, mas respirou fundo e levantou a cabeça. Iria voltar a ser humana, nem que demorasse anos para isso. Porque se recusava a ser uma simples gata, olhou para outros vendo 5 fêmeas. Pensou em falar, mas ainda tinha voz? Pensou então em miar, mas isso parecia estranho, quando alguém falou atrás de si.


- Você vai se acostumar, ser gato não é tão ruim - Olhou para trás e viu uma gato pelado, que sabia ser o gato preferido de Bastet. Seu nome era Charlie e sempre pareceu ser um tanto esnobe para Ayla.

- Eu não quero ser uma Gata! Eu sou uma Humana! Como Bastet fez isso? - Foi então que sentiu uma cabeça se esfregar na sua, era uma gata persa branca, que se chamava Pérola e que sempre foi muito carinhosa.

- Todos nós fomos humanos, agora somos gatos imortais. Charlie é o mais antigo e depois vem eu! Você nunca se perguntou de onde vem o nome dela? - Ayla abaixou às recém adquiridas orelhas, se sentindo envergonhada por nunca ter pesquisado sobre o nome dela. Foi então que uma shorthair oriental toda preta, que sempre foi chata para comer, falou:

- Eu sou Kioma, não pesquisar seu nome foi meu erro, eu era uma ladra como você. E Ayla tentou me reformar, mas eu não quis e por isso me deu essa nova vida. Eu já me acostumei e adoro essa mordomia! - Uma maine coon rolou abanando o rabo e rindo, Ayla se lembrava de Bastet estar constantemente brincando com ela.

- Eu venho da Rússia e sou Kira! Eu era uma trambiqueira que passava a perna nas pessoas. Bastet não gostou disso e quando começamos a namorar tentou me mudar, mas logo me transformou nessa gata e acho muito divertido - Foi então que dois gatos siameses se aproximaram e falaram.

- Aide e Aike, viemos de longe de um lugar que nem existem mais. Bastet é uma deusa Egípcia, que representa os gatos e um dos seus poderes é transformar pessoas que erraram na vida em gatos para sempre. Ela geralmente escolhe suas parceiras, Charlie foi uma exceção


Eles falaram juntos e se afastaram para subir na árvore de gato, deixando Charlie e Ayla ali. Os dois se olharam, Ayla simplesmente não entendia o que estava acontecendo e porque acontecia com ela. Mas talvez fosse o preço a pagar por tudo que fez na vida, era o que pensava. Quando se deitou sobre suas patas e olhou em volta se sentindo um tanto sobrecarregada. Foi então que Ayla perguntou.


- Porque você é homem? Bastet gosta de mulheres, mas você é homem - Charlie abanou o rabo e levantou a cabeça, como se fosse um rei ou um príncipe. E talvez fosse, Ayla não sabia.

- Um dia eu fui um Rei. Mas não era feliz, sempre amei gatos e queria ser como eles. Implorei à Bastet que me adotou e me tornou seu gato, eu vivo com ela a milênios e nunca me arrependi da minha escolha. Você vai aprender a amar ser um gato


Ele se afasta, enquanto Ayla fecha os olhos. Talvez se dormisse tudo voltasse ao normal, ou não?


Estefania Pereira

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