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O pombo



ü Na loja de DES (utilidade), o pombo comerciante expõe, na vitrine das relações, desejos, medos, sentimentos, certezas e carência. Tudo à venda, sem valor, sem limite de compras, sem negociação... ‘Olhou levou! Sinta algo, leve o que quiser!’

Prateleiras empoeiradas, adoecidas numa estante infantil frágil e cheia de cupins.

Os compradores entram na loja sedentos por consumo. Sedutores, esfomeados e usurpadores.

O pombo comerciante permite que a moeda de troca seja as migalhas dos pães arremessados e cuspidos na calçada que pisa o andarilho. Deixa-se consumir insanamente pelas moedas que enfeitam a prateleira dos sentidos.

Permissivo e usurpado na vitrine do adoecimento, se faz refém!

Alguns produtos, expostos na caixa dos achados e perdidos, são saqueados da gaveta flagelada do autocuidado.

Os compradores, assustados com tanto acúmulo de migalhas, transitam livremente pisando nos cacos de vidro.

Pisadas vorazes e olhares dissimulados feito Capitu observam a comilança do pombo. Saciados das mercadorias ingeridas das emoções alheias, saem da loja satisfeitos, lambem seu reflexo no espelho, arrotam egoísmo e seus interesses são golfados no chão.

Já não olham pra trás. Seguem sua jornada substituindo pombos e mais pombos permissíveis e irresponsáveis.

O pombo, estufado de tantas migalhas e apegado aos produtos que foram dispensados, vomita anseios de sobrevivência. Cansado de vomitar, cisca pela loja inteira e se enfurece com a realidade devastadora daquela cena.

Abre suas asas, mas não consegue alçar voo. Sem perceber, deixou-se negociar suas asas. Decide então, abraçar suas ilusões aninhado ao temor de uma tempestade luminosa que se aproxima.

Acolhido, cego pela claridade e mergulhado no vômito, ateia fogo em si na esperança de renascer das cinzas após ter morrido por tantos anos dentro de si e na vida de tantos compradores.


Priscila Guimarães

Instagram: @pri.psi.poiesis