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Pela hora da morte


A pandemia nos deixou loucos, loucos para sermos normais ou, melhor dizendo, voltarmos a ser normais. Não o novo normal que assolou becos e bocas, valas e vielas e nos fez temer passos e abraços, mas o normal de todo o dia, de quando saíamos de casa ao bel prazer, para trabalhar ou se divertir num bar, sem imaginar quais tipos de mãos (ou bocas) passaram na borda do copo que se leva aos lábios. Não, estamos longe de voltamos à normalidade, isso é fato. Ao invés disso, o novo coronavírus se mostrou invencível, apesar de minúsculo e menosprezado, e nos afrontou, mostrando que, diante de um desconhecido que toca o terror, nada melhor do que permanecermos resguardados no interior de nossas casas.

Evitar passou a ser proteção. Evitar passou a ser palavra de ordem. O novo toque de recolher. Recolher-se, o que sempre nos remete à reflexão, é o que se faz quando se se tem tempo demais para pensar na vida. Ao menos, é o que se deveria fazer. Recolher e refletir. Tanto aos que são feitos de água, pois sempre há os que se dissolvem em saliva e lágrimas, quanto aos que são feitos de ar, de vazios ou ausências. Não sabia que esses também existiam, caro leitor? É fácil distingui-los, pois não possuem coração, como quem tem um rim arrancado sem deixar nada do lugar. Deixe-me explicar o motivo da minha reflexão, o dia em que resolvi fazer um experimento.

Fui obrigado a ir ao banco, uma dessas urgências urgentíssimas, arranjar dinheiro para as despesas prementes que, mesmo em tempos de pandemia, sempre há. A título do experimento, vesti-me com apuro. Iluminado, juntamente com o sol faiscante daquele dia. Dirigi-me ao quarteirão dos bancos, máscara em riste, luvas e faceshield, (especialmente encomendado pela internet para a ocasião). O quarteirão reunia uma amostra deles, dos bancos mais populares aos mais elitizados, agências Estilo ou Personalité. Encarei a fila dos desajustados, à espera da ajuda emergencial do governo, queixo caído ao imaginar a demora até que o último da fila fosse atendido. Acabei entrando no Personalité de queixo erguido e nariz em pé, ouvindo conversas ao pé do ouvido (nada como passar o tempo ouvindo fofoca alheia!).

Preguei as orelhas no espaço aéreo, feito de muitas interjeições e indignação, e me admirei da minha capacidade auditiva. A um canto, a conversa da madame cumpliciada com a amiga, no entendimento de que não se deveria ajudar moradores de rua. Arruaceiros, dizia uma. Preguiçosos, dizia a outra, enquanto na telinha da TV a mulher da Autoridade afirmava em bom som que pessoas em situação de rua gostavam mesmo era de viver na rua, não sendo correto dar a eles comida ou cobertor. A autoridade, você sabe, foi a mesma daquela outra vez, em que mandou policiais jogarem jatos de água fria nos mendigos em pleno inverno, o mesmo que fazia gelar os ossos. Foi quando desconfiei que também os corações podiam gelar. E, uma vez gelados, não funcionavam mais, imprestáveis. Podia-se arrancar do peito e jogar fora, assim como os cobertores que não aqueciam.

Depois da conversa entreouvida e escusa, saí da fila, já com uma boa ideia de como era frequentar o banco dos ‘bacana’. Já constatando a ambivalência da raça humana. Cruzei a porta giratória, dessa vez sem medo dos ‘polícia’, e saí para a calçada, suando em bicas, pronto para enfrentar a fila no banco ao lado, o popular.

Dei novo relance na senha, que tirei amarfanhada do meu bolso. 351. Ia levar algum tempo até chegar a minha vez. Não me importei. Já de volta ao final da fila, depois de mais alguns minutos, vislumbrei a madame sair do Personalité, de queixo erguido e nariz em pé, dar uma nota de 20 para o ‘cara’ do estacionamento sem esperar o troco. Decerto para não tocar na mão de ninguém. Suspirei, aliviado. Achei tão bom sentir o suor escorrendo pelo meu pescoço e pernas naquele momento, protegendo meu coração que pulsava dentro do peito como nunca antes, resguardando a minha humanidade. (Crônica, Os Imaginários, 31 de julho de 2020)


Sandra Godinho



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